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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Guarani-Kaiowá

As redes sociais andam comovidas com um presumido massacre a indígenas do Mato Grosso do Sul. Diz-se mesmo que eles teriam anunciado o suicídio coletivo. Mas será que dá para comprarmos essas idéias tão facilmente?

Lunae Parracho/Reuters

Se você é do tipo que só precisa ver a foto de um índio morto pendurado em uma árvore e uma carta emocionada, supostamente escrita por índios, para ter fé em que há um bando de fazendeiros malvados matando indígenas indiscriminadamente no Mato Grosso do Sul, então pode ficar por aqui neste post, pois o seu senso crítico é mais adequado para leituras deste tipo.

se você resolveu continuar, é porque aceita que não devemos partir do princípio que os fazendeiros são santos ou que os indígenas são santos. O interessante é entendermos os fatos e fazermos, depois, uma avaliação de o que é justo e o que não é.

Os indígenas estão há anos aguardando a demarcação de terras que teriam pertencido aos seus antepassados há 100 anos. Aparentemente, já teria havido um decreto presidencial demarcando as terras, mas teria sido revogado pelo STF. Se foi revogado, é porque os direitos de propriedade das terras são disputados, e a Corte entendeu que as propriedades privadas que lá estão mantêm o direito à posse. Aqui já começamos a entender que se há fazendeiros protegendo terras, é bem possível que estejam amparados pela legalidade jurídica.

A linha verde é a fronteira entre o Brasil e o Paraguai, no Sul do MS. A linha vermelha demarca os limites do município de Paranhos, onde está localizado o problema, e as áreas coloridas são as reservas indígenas já demarcadas em definitivo na região.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Áreas protegidas no Brasil e mundo

Pessoal, vamos difundir isto aqui. Vamos imprimir e carregar no bolso. Vamos pintar nos muros. Vamos engarrafar e tomar coom vacina contra vírus que vêm de avião de outros países.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Samuel Benchimol


Um dos grandes pensadores da Amazônia do Século 20. Vastíssimas obra sobre a história, economia, sociologia da região.

Escreveu, no ano 2000, pouco tempo antes de falecer, este texto que precisaria ser lido por todo amazônida. Arrisco-me a dizer que transmite de forma única as aspirações, as preocupações, da grande maioria das pessoas deste nosso imenso mundo amazônico.

Não deixe de ler "A Amazônia e o terceiro milênio", de Samuel Benchimol.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

The British way

Britain's position at the EU negotiations is that of sticking to the toxic pollution that gives London short term gains and the whole world long term losses. Compared to climate change, where the long term is much, much longer, and the losses are much, much less certain, unregulated finance is arguably a more urgent problem to be tackled.



Interestingly, Britain has chosen to be a heavy player in the climate change business while remaining a denier in anything that has to do with financial markets. While in the first case they try to get countries to cooperate to achieve "sustainable development", in the latter they hang tough on the notion of sovereignty.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Com ou sem partidos?

Um segmento cada vez mais importante da sociedade vê nos partidos políticos o atraso, e acredita que a nova democracia deverá ser pautada por movimentos difusos, menos burocráticos, como o que dizem estar por trás do Marinismo.



Do lado dos que defendem essa idéia, cito José Eli da Veiga, que tem argumentos muito razoáveis, porém dos quais discordo. Do lado dos que são contrários, Reinaldo Azevedo, com cujos argumentos tendo a me alinhar.

O movimento difuso que mais me intriga é o "Avaaz, o Mundo em Ação". Um grupo de jovens bem intencionados escolhe temas políticos relevantes e polêmicos em diversas partes do mundo - por exemplo, a repressão aos ativistas sírios -, debate-os internamente, chega a uma conclusão que considera correta, e incita internautas de todos os países a fazerem pressão para que a tal posição "correta" seja adotada. No caso da Síria, eles querem que todos nós pressionemos a União Européia para que imponha sanções ao país, deixando de comprar o seu petróleo.

Não preciso entrar em detalhes para convencer o leitor de que a posição dos jovens do Avaaz em relação às sanções é extremamente debatível. Se a UE deixar de comprar, não haverá outros compradores? Caso não haja, só o regime sofrerá, ou também a população? Se for apenas o regime, existe uma alternative política melhor para o povo sírio?

Eu tenho, aqui na Inglaterra, um amigo sírio / italiano que considera as sanções bastante questionáveis.

Neste ponto chegamos ao problema central dos movimentos do tipo "difusos". Eles se apóiam majoritariamente na internet, que por essência é dinâmica e transversal. Conquistam, com isso, duas proezas que só o mundo moderno oferece: engajar pessoas que antes não teriam se engajado, pois tendem a ficar sentadas em casa vendo televisão - e agora acessando a internet -, e fazer com que essas pessoas dêem respostas rápidas, já que estão a um clique de distância, e efetivas, pois um "arrastão de twitter" pode derrubar políticos da noite para o dia.

O que não é intrínseco à internet é a capacidade crítica e argumentativa. Esta habilidade fundamental para o processo político não é potencializada nos movimentos difusos, o que faz com que as pessoas sejam levadas a opiniar sobre uma proposição, a se engajarem politicamente, sem antes fazerem a necessária reflexão, e sem terem a capacidade de convencerem outros sobre as suas próprias posições.

Ao darem transversalidade e dinamismo à política, sem adicionarem capacidade crítica, os movimentos difusos facilitam a captura das massas por idéias de todos os tipos.

É por isso que hoje, no contexto da internet, os partidos são mais necessários do que nunca. Porque eles nada mais são do que loci de debate, disputa, argumentação. Eles sim instigam a capacidade crítica. Eles sim confrontam as opiniões e produzem uma síntese que representa a mediana das posições e dos interesses daqueles que ali estiveram presentes.

Já argumentei em outro post que o Marinismo não tem a chave do futuro como pensa ter. Ele é, paradoxalmente, o caminho para o atraso, travestido de modernidade. O Marinismo, com sua presuntiva base difusa e eletrônica, estimula a captura dos mais vulneráveis - os despolitizados - por ideais que não representam a mediana dos interesses dos brasileiros, mas a síntese dos interesses das lideranças marinistas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Só desgraça na Amazônia? Post longo

Há quase dois meses escrevi um comentário crítico à "rede Amigos da Amazônia", da FGV. Recebi resposta de Malú Villela, que publico aqui junto com a minha mensagem original e com a minha tréplica enviada hoje. O debate é sobre a visão depressiva, pessimista, viesada que se constrói da Amazônia a partir de fora dela.


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Primeiro a mensagem mais recente: 3) Só desgraça na Amazônia? 3


Cara Malu,

muito obrigado pela sua resposta, e perdão pela demora em lhe retornar.

Achei interessantes o Catálogo Sustentável e a seção de debates sobre questões latentes. Não acho, porém, que resolvam o problema da imagem pessimista e negativista que a mídia nacional constrói da Amazônia como um todo, e do seu setor privado em particular.

A real solução é uma mudança epistemológica: olhar para a Amazônia com um olho dentro dela e outro fora. Pois quando se olha com os dois olhos fora, cai-se na armadilha de comparar indistintamente alhos com bugalhos, Ceará com Paraná, Tanzânia com Alemanha.

No Catálogo Sustentável há 26 iniciativas públicas nacionais, das quais 2 de localidades do Norte do país (uma do NE e outra do NO); das 15 iniciativas do setor privado, nenhuma é do Norte do Brasil. Por quê? Há realmente tão pouca criatividade e qualidade nos setores público e privado do Norte e Nordeste brasileiros?

O problema é que não há iniciativas privadas em Rondônia, Amazonas ou Acre, que sejam comparáveis com iniciativas do Pão de Açúcar, da Natura ou da Motorola, por razões óbvias. Assim como nenhum município do Brasil conseguirá realizar um evento cultural comparável à virada cultural de São Paulo. Mas há muitas iniciativas em Rondônia que se destacam em relação à realidade do estado, e que certamente irão determinar os rumos do setor privado do estado no futuro. São as empresas de ponta da realidade do Norte do Brasil.

Comparar as empresas do Norte com a de São Paulo é um equívoco que leva a resultado pré-determinado: a visão de que o setor privado do Norte é ruim, arcaico, etc, etc. É o mesmo que comparar o setor privado de Nairóbi com o de Londres.

Num olhar de dentro para fora, as iniciativas de sucesso em sustentabilidade na Amazônia passam a ser as daquelas empresas que conseguem *sobreviver e* fazer o que o Pão de Açúcar, a Natura e a Motorola já fizeram há muito tempo. Daquelas madeireiras que conseguiram se adaptar ao modelo de planos de manejo; dos pecuaristas que conseguiram recuperar APP; das cooperativas de artesanato que conseguiram de fato gerar renda a partir de materiais não-madeireiros da floresta; das rádios comunitárias que passaram a transmitir programações com temas ambientais. As iniciativas daquelas micro, pequenas e médias empresas que foram capazes de fazer mudanças positivas ao mesmo tempo em que se mantiveram vivas.

Isso é uma mudanças epistemológica. E só a visão de dentro para fora poderá causar um impacto construtivamente positivo no setor privado regional. Caso vocês da FGV queiram ver na prática como se faz isso, basta virem conversar com os empreendedores de carne e osso da Amazônia: nós, em Rondônia, Roraima, Tocantins, já usamos há decadas essas lentes.

Cordialmente,


1) Só desgraça na Amazônia?


Prezados, parabéns pela iniciativa. Tenho críticas a fazer, no entanto. A idéia de vocês é contribuir para o desenvolvimento sustentável da região amazônica, e não tenho dúvidas de que, sendo um consórcio de escola de negócios, empresas e outras organizações, vocês reconhecem que o setor privado local tem um importantíssimo papel nesse caminho. Por sinal, estou escrevendo porque sou de Rondônia e trabalho com pesquisa e na prática na mesma área que vocês. Uma pessoa que não tem a menor idéia daquilo que se passa na Amazônia - como, infelizmente, é a maior parte dos brasileiros - chegará ao site procurando aprender sobre o assunto e encontrará, entre outros, os seguintes títulos: "quem se beneficia com a destruição da Amazônia"; "exploração ilegal de madeira torna o clima tenso"; governo quer tirar o produtor rural da ilegalidade sem anistiar desmatador"; e o pior, uma frase de Luciana Betiol que diz, devido a uma infeliz ambiguidade, que a compra de madeira da Amazônia é um padrão insustentável de produção e de consumo. O leigo aprenderá no site de vocês que a maior parte do que se faz na Amazônia é ruim: exploração ilegal, insustentável, destruição, etc. Será essa visão adequada? Não existirá um outro lado que está sendo omitido? Eu tendo a acreditar que a Amazônia como é hoje tem tanto a ensinar ao mundo quanto tem a aprender, e isto também significa que, se comparada com regiões com grau semelhante de desenvolvimento, a Amazônia tem um setor empresarial incrivelmente dinâmico, maleável, e acima de tudo, batalhador. As empresas e pessoas que lá estão, em grande maioria, sobreviveram aos anos 1980 e 1990 de uma maneira que poucos de nós somos capazes de imaginar. Em síntese, estou seguro de que a campanha é absolutamente louvável, mas tenho a impressão de que, apesar de serem FGV, vocês não conseguiram escapar do  ideário depressivo, negativo, viesado, que impera na sociedade brasileira quando se trata de Amazônia. Uma mudança paradigmática é necessária também neste campo.

2) Só desgraça na Amazônia? 2


From: maluvillela@gmail.com on behalf of Malu Villela
Sent: Tue 5/4/2011 16:32
To: Vale,PM  (pgr)
Subject: Re: Comentários

Prezado Petterson,

Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecê-lo pelo interesse no site da Rede Amigos da Amazônia (www.raa.org.br) e pelos comentários deixados na seção "Fale Conosco", que é um espaço importante para que possamos receber críticas e sugestões em busca da construção de um melhor portal representativo da Rede.

As questões por você apontadas já faziam parte de um processo de reflexão da  Rede, quanto ao seu papel e contribuição para a sociedade, dentro de suas limitações e alcances. Temos repensado o site e seus espaços internos. Estamos em processo de criação de uma área para as experiências amazônicas, públicas e privadas, e que segue os moldes do site de um outro projeto que temos, o Catálogo Sustentável, que identifica exemplos de iniciativas públicas e privadas no tema do consumo sustentável. Veja em: http://www.catalogosustentavel.com.br/index.php?page=ConteudoSecao&idsecao=1
.

Com relação aos títulos das notícias que se encontravam no site quando de seu acesso, lamentavelmente está fora do nosso controle o conteúdo e freqüência com que reportagens ressaltando aspectos negativos da Amazônia são feitas e publicadas na mídia. No seu caso particular, cremos que no momento em que houve o acesso o cenário era de sucessivas notícias e
chamadas para estudos de denúncia. Podemos adiantar que já tivemos diversos momentos em que foi dado luz a  experiências públicas e privadas exitosas no bioma Amazônico.

Gostaríamos de adiantar, ainda, que, buscando a opinião do público para delinear o futuro da Rede, incluímos um link na página inicial denominado *"Mande sua sugestão"*, com a seguinte indagação: *"Que questões latentes na Amazônia você imagina que uma rede que reúne setor público, privado e sociedade civil em prol da conservação da floresta deveria abranger?"*. Dessa maneira, queremos construir, juntamente com o público, uma Rede que, de fato, articule todos os setores em prol da gestão integrada da Amazônia. Você também está convidado a responder a esta questão e a continuar nos encaminhando depoimentos e sugestões que nos ajudem, cada vez mais, a aprimorar o conteúdo do site.

Finalmente, agradecemos a sua ajuda ao identificar, na citação da Luciana Betiol, a ausência de duas palavras -* ilegal* e *predatório -*, que qualificam a madeira apontada como insustentável. Este equívoco já foi corrigido, uma vez que acreditamos que a madeira é um dos materiais mais sustentáveis que existem, desde que explorado de forma adequada.

Atenciosamente,

Equipe RAA

sábado, 11 de dezembro de 2010

Novos tempos: o fim dos Amorim


A família Amorim é uma versão ocidental do clã Sarney. Com a diferença de que, sendo Rondônia um estado muito mais novo do que o Maranhão, os Amorim não tiveram tempo de construir um império à alturo daquele que controlam os Sarney. Talvez seja esse o motivo por que os coronéis rondonienses possuem vários graus a menos de influência na política nacional, e diferentemente de seus colegas maranhenses, não conseguiram se livrar da Lei Ficha Limpa.

Quem não é de Rondônia e desconhece os detalhes do coronelismo amazônida poderá aprender um pouco sobre o tema aqui. O texto que se segue argumenta que a queda inesperada de diversos grupos de poderio político em todo o país - em particular dos Amorim em Rondônia -, na esteira da Lei Ficha Limpa, pode representar o tão sonhado marco da transição de uma sociedade patronalista para outra em que as instituições políticas e econômicas abrem as portas a qualquer cidadão que demonstre aptidão, compromisso e empenho, independente de seu sobrenome ou de seus apadrinhamentos.

A base teórica dessa argumentação foi lançada pelo Prêmio Nobel de economia, Douglass North, e seus colegas John Wallis e Barry Weingast no livro Violence and Social Orders - A Conceptual Framework for Interpreting Recorded Human History (2009). Nesse verdadeiro compêndio das ciências sociais, os autores montaram um imenso quebra-cabeças de artigos científicos e livros cujas peças, desde publicações recentíssimas até obras de mais de um século atrás, não haviam se encaixado de forma coerente até então.

Argumentam basicamente que o processo de mudança social na direção de mais estabilidade e desenvolvimento - aquilo que buscamos no Brasil - tem tudo a ver com a abertura do acesso às organizações públicas e privadas e com a transposição do controle sobre a violência para as mãos do público. Em outras palavras, o que se entende de maneira ampla como "desenvolvimento" depende fundamentalmente da transição de uma ordem social de acesso restrito a outra de acesso aberto.

"Ordens sociais" são compostas por indivíduos, que podem pertencer à elite (grupos que dominam as instituições militares, econômicas, religiosas e políticas) ou ao público, por organizações (o Estado, seus órgãos burocráticos, partidos políticos, empresas, igrejas, etc), e por instituições formais ou não (as regras do jogo). Trata-se da "maneira como a sociedade molda as 'instituições' que sustentam formas específicas de 'organizações', a forma como a sociedade restringe ou abre o acesso a essas organizações, como meio de limitar e controlar a violência" (trecho extraído de aula proferida pelo Prof. James Putzel, London School of Economics and Political Science, 11/10/2010). 

Os três parágrafos acima devem ter sido suficientes para mostrar ao leitor que trata-se de tema fascinante, porém altamente complexo. Por isso, não me estenderei na apresentação da teoria (fá-lo-ei em próxima ocasião; por enquanto, os interessados podem recorrer à ótima resenha do livro feita pelo Prof. Ricardo Abramovay), saltando diretamente para a conclusão. Qual seja: sociedades sujeitas a ordens de acesso aberto entram numa espiral de desenvolvimento por meio do efeito multiplicador dos beliefs (~ valores), que podem enfatizar identidades pessoais e privilégios, no caso de acesso restrito, ou igualdade e impessoalidade, no caso de acesso aberto.

Em outras palavras, a chave que abre a porta para o desenvolvimento é a queda gradual dos privilégios personalistas. Quando as normas escritas e não escritas que regulam o funcionamento da sociedade são aplicadas sem distinção a Amorins, a Sarneys, e a Francenildos, e quando a contratação de um funcionário público por meio de portaria se dá via processo aberto e meritocrático, ao invés da costumeira indicação de afilhados políticos, se está trilhando o caminho do sucesso.

Ironicamente as mídias nacional e internacional não deram grande atenção à revolução relativamente silenciosa que a Lei Ficha Limpa impôs ao Brasil. O fato de que foram excluídos da política Amorins e Donadons em Rondônia, Maluf em São Paulo, Rorizes no Distrito Federal, e tantos outros, é um sinal de que os tradicionais coronéis da política regional perderam grande parte de sua força, e terão de fazer grandes concessões ao público para não caírem no ostracismo absoluto.

Isso significa que o Brasil, e Rondônia em particular, estão com a faca e o queijo na mão? Provavelmente sim, mas nada impede que tudo acabe em pizza. A decisão que o mais novo Ministro do Supremo Tribunal Federal terá de tomar assim que assumir o cargo, em relação à aplicabilidade da Lei Ficha Limpa às eleições de 2010, é um potencial forno para o assamento da pizza. Outras possibilidades de retrocesso são o desmedido poder que os burocratas da Petrobrás terão no Brasil do Século 21, o crescimento exponencial da influência de algumas igrejas (empresas?) evangélicas, e as prováveis relações entre Dilma e Hugo Chávez.

Em qualquer hipótese, a responsabilidade por evitar o fim pizzesco é da mesma sociedade civil organizada (aquela que diziam inexistir) que correu atrás e agora tem a faca e o queijo nas mãos. Se teremos ou não sucesso, dependerá da nossa capacidade de sustentarmos o basta que demos aos coronéis em 2010, abrindo assim a porta das organizações que determinam os rumos do país ao grande público.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Colonialismo, instituições e desenvolvimento

O debate em economia sobre a relação entre esses três importantíssimos conjuntos de variáveis se renovou nos últimos dez anos, com os trabalhos de Sokoloff e Engerman e de Acemoglu, Johnson e Robinson. Um grande conjunto de papers empíricos se seguiu e as hipóteses foram se refinando, até o ponto em que parece haver, hoje, um entendimento bem mais preciso da forma como geografia, instituições, e herança histórica interagem para determinar as possibilidades de desenvolvimento de uma sociedade.

É claro que o leitor treinado em história econômica no Brasil percebe, no mínimo, que as hipóteses testadas incansavelmente nesses papers já estavam postas no Brasil pelo menos desde 1942, quando Caio Prado Jr. escreveu a sua obra prima. Digo no mínimo porque, pessoalmente, vejo a maior parte da literatura recente como uma repetição das teorias e hipóteses presentes no trabalho de Celso Furtado, Caio Pradro Jr, e muitos outros.

Uma repetição feita sobre bases distintas, não há dúvidas, pois se antes os trabalhos eram pouco quantitativos (devido ao contexto intelectual e tecnológico da época), agora eles são centrados no teste estatístico de hipóteses. De todas as formas, na leitura dos papers atuais sempre fiquei com a nítida impressão de que possuem muitíssimo menos qualidade de detalhes e bem menos sofisticação intelectual do que os da velha guarda - é claro que o método dialético é dificilmente comparável à econometria, mas entre a frieza das regressões e a fineza da problematização discurssiva, eu fico com a última.

Detalhe: em nenhum dos trabalhos da nova geração há qualquer menção aos clássicos!

Um artigo, no entanto, me chamou a atenção por conciliar bem melhor o rigor econométrico com o reconhecimento do trabalho da velha geração e com um nível aceitável de descrição factual da história, além de uma certa problematização do objeto de estudo. Trata-se do artigo "Institutional Development and Colonial Heritage Within Brazil" (resumo em português aqui), da atual aluna de PhD em Harvard Joana Naritomi, do seu ex-professor na PUC / RJ Rodrigo Soares, e de Juliano Assunção, também da PUC / RJ. Esse trabalho, pela rápida pesquisa que fiz, foi a dissertação de mestrado de Joana na PUC / RJ, e já rendeu pelo menos uma publicação pela NBER.

Os autores procuram traçar os efeitos das instituições herdadas da metrópole portuguesa sobre uma série de variáveis institucionais cruciais para o desenvolvimento do Brasil. O estudo é desagregado por município, e o foco é nos sistemas socioeconômicos do açúcar, que se concentrou em municípios do Nordeste próximos à costa, e do ouro, que se concentrou no Centro-Sul do Brasil. As variáveis dependentes são um índice de governança municipal, o índice de Gini da distribuição da terra, e uma variável de acesso à justiça.

O estudo mostra de maneira bastante convincente que as instituições que emergiram do sistema açucareiro determinaram um grau de concentração da terra muito mais elevado do que no resto do país, e que no caso do ouro, o resultado foram índices de governança bastante piores e menos acesso à justiça.

Há muito mais detalhes interassantíssimos, e críticas a serem feitas ao paper - o leitor é convidado a refletir sobre ambos lendo o ótimo trabalho. Ao fazer isso, certamente perceberá que o trabalho de Naritomi e colegas é um raríssimo exemplo da maneira como o ferramental quantitativo pode ser aproveitado para se fazerem análises relevantes mesmo da história econômica, com importantes repercussões sobre a maneira como se entende o processo de desenvolvimento.

domingo, 6 de junho de 2010

Brasil y Argentina


Daron Acemoglu es probablemente el economista académico más influente de la actualidad. Lo que está más que justificado, ya que es referéncia en las áreas de historia económica, economia institucional, crecimiento económico, y ahora, increíblemente, también en economia del medio ambiente.


En entrevista a la revista brasileña Veja, Acemoglu habló de la importancia de las instituciones. Entre muchos temas interesantes, comparó el Brasil contemporáneo a la Argentina Kirchnerista, y concluyó que Brasil está en la dirección institucional correcta (i.e., la misma que siguieron todos los países que hoy son desarrollados), mientras la Argentina camina hacia atrás. Por qué? Porque las decisiones políticas en Brasil son cada vez más restringidas por las instituciones del Estado de Derecho (Lula fué multado cinco vezes este año por campaña electoral anticipada), mientras que el la Argentina pasa lo contrário (Cristina desafió la Ley del Banco Central, peleó, peleó, y ganó).


Yo no estoy totalmente de acuerdo con su posición, porque entiendo que las instituciones son mucho más que simplemente las reglas del juego político. Pues cuando se habla de instituciones que regulan la relación entre las personas, entre personas y empresas, y entre personas y gobierno, la Argentina, muchas vezes, está más adelantada. Y la señal más obvia de eso es que tiene niveles de desigualdad mucho más pequeños que Brasil, y políticas públicas mucho más progresistas (más sobre eso en este post).


Pero no es sobre eso que deseo opinar. Lo que si quiero defender, y para esto es muy difícil dar argumentos convencibles en un espacio tán corto como este, es que lo que Acemoglu correctamente evalua como positivo en mi país se debe al 99% a los ocho años de gobiero del más grande estadista que ha tenido el Brasil moderno. Hablo del Dr. Fernando Henrique Cardoso, que afortunadamente está vivo, participa de la política y sigue escribiendo.

Es muy frecuente que los extranjeros vean a Lula como el gran símbolo del Brasil moderno y del progreso que tuvimos en los últimos años. No soy contrário a eso, pues sería locura no reconocer que Lula, como Obama en Estados Unidos y Evo en Bolívia (pero no Hugorila en Venezuela, que es un caso totalmente distinto), representa la llegada de una etapa más alta de la democracia. Además, él logró hacer saber al mundo de las conquistas de nuestra nación - lo que es bueno para Brasil, en todos los sentidos -, y al mismo tiempo, se construyó como símbolo de eso.


Pero nada de eso hace de Lula y de su PT responsables por lo que Brasil tiene de avanzado en términos institucionales. Por lo contrário, si fuera por ellos, estaríamos casi como los argentinos, que todas las mañanas rezan para que las noches de una pareja que duerme en una casa rosada hayan sido suficientemente acaloradas para que hayan tenido buen sueño. La verdad, los "compañeros" del partido han intentado de todas las maneras (y han conseguido, muchas vezes) hacer exactamente lo mismo que han hecho los Kirchner en la Argentina: institucionalizar el clientelismo.


Concluyo este largo debate con dos observaciones. La primera es que no se deben negar los benefícios que trajo Lula para el país (como tampoco se deberían negar las conquistas de los K&K), que tienen que ver con niveles de desigualdad menos grandes y con una imagen externa positiva - factores que, para fines de evaluación del desarrollo de un país en el horizonte de décadas, son conjunturales, y no por eso menos importantes. Pero no hay que cometer el equívoco de imputarle al PT la estructura, en nivel amplio, que le está permitiendo al país caminar hacia lo que fué la Argentina en el início del Siglo 20.

La segunda observación, nuevamente imposible de justificar en pocas palabras, es que Brasil se encuentra, en el 2010, en la misma situación que estubo la Argentina hace cien años: la de una sociedad que deberá optar por seguir evolucionando de manera fuerte, perene, inclusiva, y democrática, por un lado, ó por tomarse el camino que lleva hacia el populismo, el autoritarismo, el clientelismo, y el sectarismo de los que pertenecen y los que no pertenecen a la burocracia estatal. Ya sabemos por que camino optó la Argentina. La decisión de los brasileños será tomada el 10 de octubre de este año.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Prova ANPEC

Muitos dos poucos leitores deste blog vêm em busca de informações sobre a prova da ANPEC. Disponibilizarei, então, os textos que redigi quando da preparação para a prova de economia brasileira, pois poderão ajudar àqueles que estão se iniciando no grande desafio!


Aqui estão:


-- política econômica da primeira república;
-- papel do Estado;
-- origem da industrialização;
-- inflação;
-- abertura dos anos 1990.


Boa sorte!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sobre machismo e feminismo

O artigo do grande antropólogo, médico, biólogo e historiador, Jared Diamond, traz uma interessante discussão sobre as diferenças genéticas entre os sexos. Vai de encontro ao que pensam os radicais dos feminismo, que entendem não passarem de construções sociais os comportamentos de homens e mulheres. Ao mesmo tempo, afirma que o ser humano é dotado de racionalidade, e por isso tem algum controle sobre os seus instintos.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sobre economia e crematística

Aristóteles:

"A crematística natural reflete à economia doméstica, enquanto o comércio é a arte de criar riquezas não de qualquer modo, mas somente por meio da troca de bens. E é essa última forma, parece, que se relaciona com o dinheiro, pois o dinheiro é nesse caso elemento e limite da troca. Em consequência, essa forma de riqueza que provém da crematística assim definida é verdadeiramente sem limites (...) para esta forma de crematística não há limite para o seu fim, e seu fim é a riqueza e a aquisição de bens em sentido mercantil. Pelo contrário, a arte de adquirir riquezas para a administração da casa, totalmente diferente da crematística propriamente dita, tem um limite, e por outro lado a experiência de cada dia nos mostra que é o contrário que ocorre: pois todos os traficantes aumentam indefinidamente a sua reserva monetária (...) o uso não ocorre do mesmo modo nos dois casos (...) a forma doméstica da crematística tem em vista um fim distinto da acumulação de dinheiro, enquanto a segunda forma tem por fim a própria acumulação. Em consequência, alguns pensam que esta acumulação é também o papel da administração doméstica, e eles vivem continuamente na idéia de que seu dever é conservar intacta a sua reserva de moeda ou mesmo de aumentá-la indefinidamente. A razão dessa atividade é que eles se aplicam unicamente a viver, e bem viver, e como o apetite de viver é ilimitado, eles desejam meios de viver também ilimitados" (Aristóteles, Política).

Ruy Fausto comenta: o que se critica, assim, é propriamente a ausência de limite, quer na própria progressão da acumulação pela acumulação, quer na acumulação com vistas a um excesso de bem viver (Marx: lógica e política).

A economia neoclássica é, na verdade, crematística, pois não aceita qualquer noção de limite ao crescimento econômico (Juan Martinez-Alier).

sábado, 18 de outubro de 2008

E a hegemonia do dólar?

O futuro da crise financeira

A atual crise tem levado os estudiosos a refletir sobre a reordenação das relações geopolíticas mundiais, fenômeno que está em andamento desde o início do Século, quando a China se estabeleceu como potência e a Rússia assumiu novo papel, mas que se acelerou agora devido à crise sistêmica do capitalismo. Uma crise com elementos de 1929 e de 1987, com possibilidade de um desfecho à la Bretton-Woods mas que provavelmente terá consequências mais parecidas com as de 1979.

Por quê?


Em 1979 o aumento da taxa de juros estadunidense para um patamar próximo dos 20% anuais levou à configuração do atual sistema financeiro globalizado, já que forçou um afluxo de dólares em direção aos títulos da dívida estadunidense, portanto em direção a Wall Street. Os grandes conglomerados financeiros tinham sede, até então, no euromercado, onde estavam desde os anos 1960 devido à maior regulação no mercado estadunidense. A explosão dos juros, de responsabilidade do então presidente do FED, Paul Volcker, também fez com que estourasse a crise da dívida dos países subdesenvolvidos, fenômeno que estancou o crédito externo do Bra
sil por quase toda a década de 1980 e que levou à década perdida e à crise fiscal do Estado nos anos 1990. Além disso, modificou a estrutura dos fluxos comerciais mundiais, pois valorizou o dólar e fez com que os Estados Unidos deixassem de ser exportadores líquidos, causando saída de dólares via déficit comercial atrelada à concomitante entrada via déficit fiscal (compra de títulos do governo por parte dos países superavitários, principalmente o Japão) - os famosos déficits gêmeos. Surgia, assim, um mecanismo por meio do qual a máquina econômica estadunidense pode praticar déficits comerciais com o resto do mundo e ser, ao mesmo tempo, financiada por eles.

A situação atual é muito parecida com a de 1979 nos seguintes termos:


1) autoridades de países desenvolvid
os e de países periféricos relevantes discutem a possibilidade e a necessidade de uma moeda supranacional, dando lugar a boatos de um eventual fim da supremacia do dólar. Verificou-se nos anos recentes a retomada do crescimento europeu, puxada pela Alemanha (a locomotiva européia) e pela Inglaterra, e principalmente a ascenção da Ásia como região altamente dinâmica e integrada, devido à constituição de uma divisão do trabalho em que Japão e Coréia do Sul produzem bens de alto valor agregado e bens de capital, e China, Taiwan e outros NICs produzem bens de baixo e médio valor agregado; com o que Euro, Yuan e Yen adquiriram importância relativa crescente, com participação cada vez maior nos portfólios de importantes Bancos Centrais e corporações de todo o mundo.


2) No futuro, os juros precisarão subir. Em 1979 subiram em resposta à inflação provocada pelos dois choques do petróleo (chegou a 15% nesse ano), e desta vez subirão em resposta ao endividamento récorde dos países desenvolvidos, que, em algum momento, aumentará o risco de se emprestar dinheiro a eles e poderá pressionar a inflação, a depender de como estará a demanda. As previsões mais otimistas para o déficit estadunidense em 2009 são de 5% do PIB, ou US$ 750 bilhões, mas David Brooks, colunista do New York Times, estima que esse número será muito, muito maior. As razões são: resgates bilionários de empresas em estado de insolvência financeira; novo pacote de estímulo fiscal, à moda Keynesiana, por meio de restituição de imposto de renda; mais estímulo fiscal via investimentos e gastos em seguridade social, particularmente em saúde; cortes de impostos para as pequenas empresas.
É claro que nos próximos dois anos não é possível pensar em aumento de juros, porque o problema será exatamente a baixa liquidez aliada à contração no estado das expectativas, portanto no investimento. Num quadro como esse, a necessidade é de baixar os juros. No entanto, à medida que a crise passar e o déficit ficar, o cenário será outro. O diagnóstico de Alan Greenspan, em entrevista à Folha, também vai nessa linha: o governo deve injetar dinheiro na economia para restituir a confiança no sistema financeiro, e para tanto precisará emitir títulos da dívida. Isso não será problema no curto prazo, mas irá forçar a inflação no médio prazo, e o FED sabe muito bem qual é o remédio para ela. Portanto, no médio prazo haverá aumento de juros.

Conclusão: não há razões para se acreditar que a hegemonia do dólar e dos Estados Unidos está ameaçada. Muito pelo contrário, é possível dizer que haverá uma nova rodada de concentração do poder financeiro nos Estados Unidos, pois os juros precisarão aumentar e isso vai fazer com que o capital se dirija novamente a Nova Iorque, promovendo uma nova rodada de déficits gêmeos.

Até quando isso irá se sustentar é outra conversa...

A menos que as intenções de Merkel, Brown e Sarkozy de liderar a criação de uma nova institucionalidade econômico-financeira mundial se concretizem e consigam impor restrições aos fluxos de capital. Em suma, pouquíssimo provável.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vida de seringueiro: tecido da floresta 2

Eu e dois amigos fizemos uma visita às comunidades que produzem o Tecido da Floresta. Foi um passeio interessantíssimo!
Primeiro fui levado à sede da Coopflora, em Machadinho do Oeste.















Ao entrar, encontrei uma amostra das bolsas que os artesãos produzem com o Tecido da Floresta. E a minha impressão, de leigo em assuntos de moda, é de que as bolsas são muito bem feitas, especialmente se considerarmos que são 100% artesanais. As máquinas que se vêem do lado direito da foto foram recém adquiridas e ainda não estão em uso, mas já são motivo para muito otimismo por parte dos seringueiros, porque agora poderão produzir em escala bem maior.
Dêem uma olhada nos produtos:













Para se ter uma idéia, a matéria-prima tem esta cara:




















A visita começou na RESEX (Reserva Extrativista) Quariquara, uma reserva estadual que pode ser explorada legalmente pelas populações tradicionais (e somente por elas), os seringueiros, e é gerida pela SEDAM (Secretaria estadual do Desenvolvimento Ambiental) e pela ASMOREX (Associação dos Moradores da Reserva Extrativista). Lá conheci a família do Sr. Dorival Bindá e da Sra. Maria das Graças Bindá:

O forasteiro sou eu, o careca é o Godelo, líder do projeto Tecido da Floresta, e os demais a família do Sr. Doriva e da Sra. Maria das Graças.
Eis a vista da casa deles:



Mais adiante fomos à casa do Sr. Tiago:
U Tiag uma veiz foi atacad puma onça. Eis tava im treis cumpanhêru i um deis ficô cum med i trepô logo numa arvi... num tinha crist que descessi u caboc di lá.. a onça vinu pa cima du Tiagu, u cumpanhêru im riba da arvi i u otu passanu a mão num facão pá vê si dava jeit de matá éa. Quand a onça pulô im riba du Tiagu ei garrô nu pescoço déa i tentô sigurá a murdida da bicha.. sigura daqui, sigura dali i sigura di lá i u cumpanhêru du facão chegô pur tráis i mandô vê u facão néa. U Tiagu levô dentada nu naríis, nu peitu i na urêia, mais si safô dais bocada mais ferois.
Dispois nóis ia matá u cabocu qui feiz aquéa cuvardia, mais otus cumpanhêru acalmô nóis i pidiu
qui dexássi u ómi pa lá.. qui u med éra qui tinha guvernadu ei.
A casa do Sr. Tiago é do tipo tradicional:

















As ferramentas de trabalho do Sr. Tiago:

E a carne seca!

No caminho para a casa do Sr. Tiago, o nosso guia veio nos explicando como funciona o trabalho dos seringueiros.




















Cada família de seringueiros recebe uma “colocação” dentro da reserva. É um pedaço da RESEX que pode ser explorado de uma determinada maneira, ditada pela lei. Por exemplo, segundo essa lei um percentual da colocação pode ser desmatado e o resto deve ser utilizado para a extração da seringa. Além disso, as Associações de Moradores podem fazer planos de manejo e extrair madeira das reservas de maneira sustentável, gerando renda a ser repartida dentro da comunidade.
O seringueiro mapeia as árvores de seringa que existem em sua colocação e produz uma “rua”, um caminho que liga a casa dele a todas as seringueiras de sua colocação. Assim, ao transitar pela rua ele encontrará todas as seringueiras de sua propriedade.
A extração do látex se dá através de cortes na planta que são feitos de maneira a que o leite caia dentro de um recipiente (cumbuca).











Na foto com o nosso guia, a cumbuca está virada para baixo.
À medida que o leite cai dentro da cumbuca ele vai se coagulando, até que se transforma no cernambi:
Os cortes são feitos a cada dois ou três dias em todas as árvores, e somente nos meses de agosto e setembro não se cortam as seringueiras, porque é a época do florio e deve-se deixá-las repousarem. Se uma seringueira deixar de ser cortada por um longo período de tempo, haverá um acúmulo de leite provocando o rachamento do tronco, o coprometimento da casca e gradativamente a morte da árvore.
Quando um dos lados da seringueira já está todo cortado, corta-se o outro lado. Quando este também já está completo, a casca que havia sido cortada do lado anterior já se terá regenerado, de modo que se pode retornar àquele lado.
Não se deve cortar antes de uma chuva, porque a cumbuca fica cheia de água e o leite cai na terra. Se a chuva vier algum tempo depois do corte, quando o leite já se solidificou, não há nenhum problema.
Os seringueiros reúnem os cernambis (o látex coagulado nas cumbucas) em um saco encauchado (impermeabilizado com o látex da própria seringueira), e após procederem à prensagem de conjuntos de cernambis que totalizam aproximadamente 30 Kg, vendem as peças prensadas para as indústrias de beneciamento de borracha (a produção de 1 Kg de cernambi demanda entre 3 e 4 litros de látex). Essa venda é intermediada pelas cooperativas de seringueiros, que pagam R$ 2,00 pelo Kg de cernambi. Alguns seringueiros acreditam que o preço que recebem é muito baixo, se for considerado o valor que a cooperativa recebe. Mas eles não têm a informação de qual é este último valor.
A alternativa a esse comércio é a venda para a Coopflora, a cooperativa dos povos da floresta, que produz o Tecido da Floresta, para quem os seringueiros podem vender o leite ou as mantas já prontas. Caso optem pela venda do leite, devem depositar nas cumbucas algumas gotas de amônia para impedir a coagulação do látex. Assim, após algumas horas de escorrimento do leite, o seringueiro retorna ao local e recolhe o leite nos sacos encauchados, armazenando-o em vazilhames e vendendo para a coopflora: o preço atual de um litro é de R$ 2,00. Se optar pela produção da manta, pode vendê-la por um preço que vai de R$ 7,00 a R$ 18,00, dependendo da qualidade, sendo que o consumo de látex é de aproximadamente 1,5 L.
Um seringueiro tem uma renda média mensal de R$ 400,00 se vender o látex diretamente à cooperativa. Mas o Tecido da Floresta pode fazer com que essa renda suba para R$ 1000,00, uma vez que tanto a venda do leite quanto a venda da manta são mais lucrativas do que a venda do cernambi.
As mantas são tradicionalmente utilizadas pelas populações tradicionais para a confecção de sacos impermeáveis bastante simples, como o da foto (chamado pelas populações tradicionais de "saco encauchado") :
Esses sacos não permitem que a tralha se molhe e ao mesmo tempo a fazem flutuar no rio, em caso de acidentes ou quando se estiver atravessando o rio a nado, já que ao ter a boca amarrada ficam cheios de ar.
Também podem ser matéria-prima para a costura de ótimas jaquetas:


A produção do tecido é feita de maneira totalmente artesanal, e utilizando a matéria-prima da floresta. Cada família de seringueiros tem, ao lado de sua casa, uma pequena oficina de produção do tecido.

O primeiro passo é acender o fogo para que se possa derreter o látex. Utilizam-se coquinhos como combustível e uma fornalha artesanal, que tem um enorme buraco logo ao lado para que haja circulação de oxigênio:


Após a colheita dos coquinhos, se acende o fogo com látex e se jogam os coquinhos combustíveis em cima:
















Feito isso, o látex é derretido com o calor e esparramado uniformemente sobre uma tela de algodão, de modo a formar uma manta. As fotos a seguir mostram as telas de algodão, o látex antes de ser derretido e a cumbuca utilizada para esparramá-lo, já no estado líquido, sobre a tela de algodão:





















E o resultado final:



Por enquanto é isso!!!

Agradeço imensamente aos meus amigos Elizeu (que aparece na foto vestindo a jaqueta), chefe da SEDAM de Machadinho do Oeste, e ao Godelo (que aparece segurando a tela de algodão), presidente da Coopflora, por terem me possibilitado esse incrível passeio.
Quem quiser comprar o material produzido por esse pessoal pode entrar em contato comigo!
Abraço

domingo, 29 de junho de 2008

Rondônia, desmatamento, Amazônia

As dificuldades encontradas pelo IBAMA, em janeiro, para articular a operação arco de fogo em Rondônia são apenas um exemplo do desafio que representa a coordenação das ações Federais com os poderes locais da Amazônia. O posicionamento de boa parte dos políticos do Estado de Rondônia é a síntese do pensamento da absoluta maioria da população. Prepondera a visão de que desenvolver é construir estradas, hidrelétricas, alavancar o rebanho bovino e a indústria da madeira.
Ao mesmo tempo, seria difícil que se almejasse menos. A maior parte da população do Estado ainda está sujeita a déficit crônico de energia elétrica e a graves dificuldades de locomoção. Além disso, a nossa cultura essencialmente agrícola e a infra-estrutura da região não nos permitem vislumbrar maneiras muito diferentes de produzir do que agricultura, pecuária e extração de madeira. É essencial a evolução, na sociedade amazônica, da compreensão de que o desenvolvimento não se dará às custas da floresta, mas essa é uma mudança de longo prazo. No curto prazo, pouco será feito sem o apoio das lideranças locais e regionais, por menos receptivas que sejam à idéia de um novo tipo de desenvolvimento.
Existe um crescente setor já comprometido com a mudança do padrão produtivo. São eles (acadêmicos locais, empresários e indivíduos das mais diversas procedências) os principais aliados em potencial das iniciativas que pretendem sucesso, pois têm diálogo aberto com lideranças políticas, empresariado local e sociedade em geral.
Quando essas lideranças, que já têm sinergia com o desafio de um desenvolvimento mais sustentável, são colocadas na mesma categoria que grileiros, madeireiros irresponsáveis, pecuaristas irresponsáveis e todo tipo de agressor do meio ambiente e da sociedade, o que acontece é o fortalecimento destes últimos, que também têm acesso às lideranças locais e regionais. A dificuldade em envolver quem já trabalha por um novo modelo de desenvolvimento é o caminho para o sucesso dos que representam o que há de pior na Amazônia. É como a empresa que decide fazer uma ação social na favela, elabora um lindo plano, mobiliza seus funcionários e se dirige à comunidade para implementar a iniciativa sem nunca tê-la discutido com seu público-alvo. O mais provável é que se fortaleça a idéia de que a empresa não está comprometida com a comunidade, e saiam ganhando aqueles que vivem da sua exploração.
É urgente que as mais diversas iniciativas ligadas à Amazônia primem pela coordenação com o setor comprometido da sociedade local, colhendo a sua opinião e comprometimento. Que congressos que discutem a Amazônia sejam realizados em Porto Velho ou Ji-Paraná; que essas lideranças sejam incluídas na discussão de iniciativas como o Pacto Amazônico; que os planos do governo Federal passem por seu crivo; e, principalmente, que aqueles que trabalham para sensibilizar a maioria sobre a viabilidade de um desenvolvimento mais sustentável tenham sua atuação reconhecida e divulgada.
O sucesso de iniciativas ligadas à promoção de um novo padrão produtivo no território amazônico será, necessariamente, produto da coordenação entre as esferas Federal, Estadual e Municipal, a academia, a sociedade local, o setor privado local e as organizações não-governamentais. Essa não é condição suficiente para que se caminhe na direção correta, mas é necessária para o sucesso de qualquer caminhada. E sabemos que envolve uma complexidade de interesses políticos e econômicos, razão pela qual é a parte mais difícil do quebra-cabeças.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Tecido da Floresta!

Há alguns dias participei de uma reunião da ASMOREX (associação dos moradores da reserva extrativista) Rio Preto - Jacundá, e conheci uma iniciativa que me deixa muito orgulhoso e esperançoso em relação ao desenvolvimento do meu município (Machadinho do Oeste) e da Amazônia como um todo. É o "Tecido da Floresta". Uma maneira criativa de utilizar o conhecimento tradicional dos seringueiros amazônicos para gerar renda para a comunidade sem agredir o meio ambiente.

O texto a seguir é o resumo de algumas reportagens que encontrei sobre o assunto (que estão citadas no rodapé).

Os soldados da borracha, como eram chamados os trabalhadores que extraíam o látex da seringueira na Amazônia, estão se transformando em costureiros em Rondônia. Eles estão produzindo bolsas e acessórios com o Tecido da Floresta, um produto derivado da borracha nativa (látex), totalmente natural. A borracha é até hoje a principal fonte de renda para os habitantes tradicionais da floresta amazônica brasileira. Mas com a queda do seu preço, cada vez mais seringueiros estão fugindo da região ou migrando para atividades como a pecuária e a extração da madeira.

O desenvolvimento de produtos derivados do uso sustentável da floresta é uma das alternativas que a Coopflora, cooperativa que reúne seringueiros na região dos municípios de Machadinho do Oeste e Vale do Anari, em Rondônia, encontrou para ajudar na geração de emprego e renda às famílias locais. A principal dificuldade, segundo o presidente da Coopflora, Erni Santos Lima, é a resistência de alguns seringueiros em trabalharem associados. "Seringueiro não tem profissão reconhecida, não é o dono da terra e, por isso, está acostumado a vender a borracha aos donos, trabalhando como empregado. O que nós fazemos é um trabalho de conscientização no próprio habitat do seringueiro", declarou.

Terezinha de Paula mora em Vale do Anari, onde trabalhava como seringueira. Há dois anos ela iniciou a cooperativa junto com Erni, seu marido e também seringueiro, e hoje já se vêem os frutos em termos de geração de emprego e renda para as famílias locais.

A história da extração de látex inspirou a artesã a idealizar uma linha de produção de bolsas feitas com o Tecido da Floresta. Os soldados da borracha usavam sacos defumados,bolsas improvisadas feitas com o material extraído da árvore, para carregar seus pertences pelo meio da floresta e ao atravessar rios (os sacos são totalmente impermeáveis). Esse conhecimento tradicional do seringueiro é que formou a base criativa para o desenvolvimento do Tecido da Floresta.

Transformar seringueiros em costureiros e designers não foi tarefa fácil. Terezinha e o marido foram buscar ajuda para implantar a idéia e assim surgiram parcerias com a Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR), Governo Estadual, Ministério do Meio Ambiente e Sebrae local. A criação é coletiva e os ex–seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. Em sua primeira visita a São Paulo, a convite da ONG WWF, Terezinha saiu em busca de oportunidades de negócios para sua novíssima linha de produção. Já conseguiu contato com uma importante marca que desfila no SPFW, que vai analisar as mantas, como são chamadas as peças do Tecido da Floresta, para utilizar em roupas e acessórios.

As peças já são vendidas em vários estados brasileiros - São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná -, e devem chegar ao mercado externo neste ano. "Alguns de nossos clientes já mandaram amostras para a Europa. Esperamos fechar a primeira exportação já no começo do ano", conta Erni.

O projeto existe há três anos e está inserido na metodologia da Gestão Estratégica Orientada para Resultados (Geor) do Sebrae. Segundo o coordenador do projeto, Lucimar Antonio Gonçalves, a cooperativa possui atualmente 47 associados, entre costureiros e seringueiros. O Sebrae vem desenvolvendo consultorias em gestão e tecnologia de produção para a cooperativa, que atua em oito reservas extrativistas. Para desenvolver o tecido, o Sebrae trouxe químicos para ajudar a suavizar o cheiro forte da borracha. Também foi feita uma pesquisa de aceitação de mercado, estruturação de um galpão e aquisição de máquinas de costura. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. "A transformação que está ocorrendo na vida desses seringueiros é muito grande. Alguns conseguiram aumentar sua renda em 100%. Em média, eles ganham R$ 500 por mês com as bolsas", diz Lima.

O processo começa com a coleta do látex da seringueira nativa. Após receber um tratamento, esse látex é aplicado em cima de uma base de tecido preparado e estendido em um bastidor. Em seguida, é vulcanizado por meio de defumação. A manta que surge fica exposta ao sol para "curar" por quarenta dias. Só então é classificada e transformada em bolsas e acessórios. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as peças. A capacitação dos seringueiros é feita pelos próprios integrantes do grupo. "Quando um descobre uma nova técnica repassa aos outros. É feita de forma solidária, ou seja, a cada novo seringueiro que entra para o projeto, um associado vai até a sua colocação (lugar onde o seringueiro mora e trabalha) e fica uma semana transmitindo os conhecimentos", conta o presidente.

Uma parceria entre a cooperativa e o Banco do Brasil irá possibilitar a montagem de uma oficina de produção das bolsas na própria cooperativa. Hoje as bolsas são terceirizadas. "A manta vai para a cooperativa e segue para costureiras terceirizadas. Queremos fazer a costura na própria cooperativa - afirma Gonçalves.

O Tecido da Floresta está ganhando mercado no país. A Coopflora está participando de feiras a convite do Sebrae, como a última edição da Biofach América Latina, a maior feira de orgânicos do Brasil, realizada em São Paulo. As bolsas também foram entregues como presente para a Presidência da República. Agora, a cooperativa procura empresas que queiram desenvolver produtos com o tecido. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail coopflora@gmail.com


Fontes:

Moda Pra Ler - http://modapraler.blogspot.com/2006/04/moda-feita-da-floresta.html
Ambiente em foco - http://www.ambienteemfoco.com.br/?p=6465
Agência de Notícias Brasil-Árabe - http://www.anba.com.br/pequena.php?id=143

Mais uma vez estou chocado por ter conhecido esta iniciativa somente agora. Se você fica impressionado ao ver um estudante universitário do Vale do Silício construindo idéias e produtos que se alinham perfeitamente com as necessidades tecnológicas da sociedade contemporânea, imagine um grupo de seringueiros de Rondônia que consegue dar andamento a um negócio que concilia perfeitamente as premissas ambientais, sociais, econômicas e culturais que caracterizam o desenvolvimento sustentável. E que transforma essa idéia em notícia pelos quatro cantos do país. É dessas pessoas que estou falando.

Tenho convicção de que empreendimentos como o Tecido da Floresta representam a saída para o desenvolvimento sustentável não apenas na Amazônia, mas em todo o Brasil. É preciso que essas atividades ganhem escala e tomem, um dia, o lugar da pecuária, da extração da madeira e da plantação de soja. Então, vamos fazer o trivial, divulgar!

Agradeço aos meus amigos Elizeu, da sucursal machadinhense da Secretaria estadual de Desenvolvimento Ambiental, e Godelo, porta-voz e apaixonado pela causa do Tecido da Floresta. Juntos vamos fazer uma visita de campo a esse empreendimento e trazer mais fotos e informações!