Eu e dois amigos fizemos uma visita às comunidades que produzem o Tecido da Floresta. Foi um passeio interessantíssimo!
Primeiro fui levado à sede da Coopflora, em Machadinho do Oeste.
Ao entrar, encontrei uma amostra das bolsas que os artesãos produzem com o Tecido da Floresta. E a minha impressão, de leigo em assuntos de moda, é de que as bolsas são muito bem feitas, especialmente se considerarmos que são 100% artesanais. As máquinas que se vêem do lado direito da foto foram recém adquiridas e ainda não estão em uso, mas já são motivo para muito otimismo por parte dos seringueiros, porque agora poderão produzir em escala bem maior.
Dêem uma olhada nos produtos:
Para se ter uma idéia, a matéria-prima tem esta cara:
A visita começou na RESEX (Reserva Extrativista) Quariquara, uma reserva estadual que pode ser explorada legalmente pelas populações tradicionais (e somente por elas), os seringueiros, e é gerida pela SEDAM (Secretaria estadual do Desenvolvimento Ambiental) e pela ASMOREX (Associação dos Moradores da Reserva Extrativista). Lá conheci a família do Sr. Dorival Bindá e da Sra. Maria das Graças Bindá:
O forasteiro sou eu, o careca é o Godelo, líder do projeto Tecido da Floresta, e os demais a família do Sr. Doriva e da Sra. Maria das Graças.
Eis a vista da casa deles:
Mais adiante fomos à casa do Sr. Tiago:
U Tiag uma veiz foi atacad puma onça. Eis tava im treis cumpanhêru i um deis ficô cum med i trepô logo numa arvi... num tinha crist que descessi u caboc di lá.. a onça vinu pa cima du Tiagu, u cumpanhêru im riba da arvi i u otu passanu a mão num facão pá vê si dava jeit de matá éa. Quand a onça pulô im riba du Tiagu ei garrô nu pescoço déa i tentô sigurá a murdida da bicha.. sigura daqui, sigura dali i sigura di lá i u cumpanhêru du facão chegô pur tráis i mandô vê u facão néa. U Tiagu levô dentada nu naríis, nu peitu i na urêia, mais si safô dais bocada mais ferois.
Dispois nóis ia matá u cabocu qui feiz aquéa cuvardia, mais otus cumpanhêru acalmô nóis i pidiu
qui dexássi u ómi pa lá.. qui u med éra qui tinha guvernadu ei.
A casa do Sr. Tiago é do tipo tradicional:
As ferramentas de trabalho do Sr. Tiago:
E a carne seca!
No caminho para a casa do Sr. Tiago, o nosso guia veio nos explicando como funciona o trabalho dos seringueiros.
Cada família de seringueiros recebe uma “colocação” dentro da reserva. É um pedaço da RESEX que pode ser explorado de uma determinada maneira, ditada pela lei. Por exemplo, segundo essa lei um percentual da colocação pode ser desmatado e o resto deve ser utilizado para a extração da seringa. Além disso, as Associações de Moradores podem fazer planos de manejo e extrair madeira das reservas de maneira sustentável, gerando renda a ser repartida dentro da comunidade.
O seringueiro mapeia as árvores de seringa que existem em sua colocação e produz uma “rua”, um caminho que liga a casa dele a todas as seringueiras de sua colocação. Assim, ao transitar pela rua ele encontrará todas as seringueiras de sua propriedade.
A extração do látex se dá através de cortes na planta que são feitos de maneira a que o leite caia dentro de um recipiente (cumbuca).
Na foto com o nosso guia, a cumbuca está virada para baixo.
À medida que o leite cai dentro da cumbuca ele vai se coagulando, até que se transforma no cernambi:
Os cortes são feitos a cada dois ou três dias em todas as árvores, e somente nos meses de agosto e setembro não se cortam as seringueiras, porque é a época do florio e deve-se deixá-las repousarem. Se uma seringueira deixar de ser cortada por um longo período de tempo, haverá um acúmulo de leite provocando o rachamento do tronco, o coprometimento da casca e gradativamente a morte da árvore.
Quando um dos lados da seringueira já está todo cortado, corta-se o outro lado. Quando este também já está completo, a casca que havia sido cortada do lado anterior já se terá regenerado, de modo que se pode retornar àquele lado.
Não se deve cortar antes de uma chuva, porque a cumbuca fica cheia de água e o leite cai na terra. Se a chuva vier algum tempo depois do corte, quando o leite já se solidificou, não há nenhum problema.
Os seringueiros reúnem os cernambis (o látex coagulado nas cumbucas) em um saco encauchado (impermeabilizado com o látex da própria seringueira), e após procederem à prensagem de conjuntos de cernambis que totalizam aproximadamente 30 Kg, vendem as peças prensadas para as indústrias de beneciamento de borracha (a produção de 1 Kg de cernambi demanda entre 3 e 4 litros de látex). Essa venda é intermediada pelas cooperativas de seringueiros, que pagam R$ 2,00 pelo Kg de cernambi. Alguns seringueiros acreditam que o preço que recebem é muito baixo, se for considerado o valor que a cooperativa recebe. Mas eles não têm a informação de qual é este último valor.
A alternativa a esse comércio é a venda para a Coopflora, a cooperativa dos povos da floresta, que produz o Tecido da Floresta, para quem os seringueiros podem vender o leite ou as mantas já prontas. Caso optem pela venda do leite, devem depositar nas cumbucas algumas gotas de amônia para impedir a coagulação do látex. Assim, após algumas horas de escorrimento do leite, o seringueiro retorna ao local e recolhe o leite nos sacos encauchados, armazenando-o em vazilhames e vendendo para a coopflora: o preço atual de um litro é de R$ 2,00. Se optar pela produção da manta, pode vendê-la por um preço que vai de R$ 7,00 a R$ 18,00, dependendo da qualidade, sendo que o consumo de látex é de aproximadamente 1,5 L.
Um seringueiro tem uma renda média mensal de R$ 400,00 se vender o látex diretamente à cooperativa. Mas o Tecido da Floresta pode fazer com que essa renda suba para R$ 1000,00, uma vez que tanto a venda do leite quanto a venda da manta são mais lucrativas do que a venda do cernambi.
As mantas são tradicionalmente utilizadas pelas populações tradicionais para a confecção de sacos impermeáveis bastante simples, como o da foto (chamado pelas populações tradicionais de "saco encauchado") :
Esses sacos não permitem que a tralha se molhe e ao mesmo tempo a fazem flutuar no rio, em caso de acidentes ou quando se estiver atravessando o rio a nado, já que ao ter a boca amarrada ficam cheios de ar.
Também podem ser matéria-prima para a costura de ótimas jaquetas:
A produção do tecido é feita de maneira totalmente artesanal, e utilizando a matéria-prima da floresta. Cada família de seringueiros tem, ao lado de sua casa, uma pequena oficina de produção do tecido.
O primeiro passo é acender o fogo para que se possa derreter o látex. Utilizam-se coquinhos como combustível e uma fornalha artesanal, que tem um enorme buraco logo ao lado para que haja circulação de oxigênio:
Após a colheita dos coquinhos, se acende o fogo com látex e se jogam os coquinhos combustíveis em cima:

Feito isso, o látex é derretido com o calor e esparramado uniformemente sobre uma tela de algodão, de modo a formar uma manta. As fotos a seguir mostram as telas de algodão, o látex antes de ser derretido e a cumbuca utilizada para esparramá-lo, já no estado líquido, sobre a tela de algodão:


E o resultado final:
Por enquanto é isso!!!
Agradeço imensamente aos meus amigos Elizeu (que aparece na foto vestindo a jaqueta), chefe da SEDAM de Machadinho do Oeste, e ao Godelo (que aparece segurando a tela de algodão), presidente da Coopflora, por terem me possibilitado esse incrível passeio.
Quem quiser comprar o material produzido por esse pessoal pode entrar em contato comigo!
Abraço
