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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ciência vulgar?

Um post no blog "Passeur des sciences", do jornal francês Le Monde, traz interessantíssima discussão sobre o que é a ciência vulgar e como pode ser identificada. Para explicar de forma muito direta o que se entende por ciência vulgar, basta dizer que é aquilo que a Academia Brasileira de Ciências (ABC) fez ao estudar o código florestal, assunto de que já tratei aqui.


O jornalista científico Pierre Barthélémy entendeu como ninguém que a ciência não é uma pessoa, um conjunto de pessoas, ou uma revista acadêmica: ela é um método, que pode ser empregado de formas diferentes, a distintas bases de dados, para testar hipóteses as mais diversas. Em seu muito lúcido texto, Pierre cita diversos exemplos de como trabalhos que para o público leigo poderiam parecer a mais absoluta verdade finalmente revelada pela ciência - como os que são comumente instrumentalizados por pseudo-cientistas para a defesa dos mais diversos lobbies (vide ambientalismo) -, são, sob olhar mais cuidadoso, conjunções de argumentos falaciosos com análises mal feitas e facilmente desconstruíveis.

Para quem lê francês, vale a pena consultar o post. Pode servir de antídoto contra ataques de militantes vestidos de deuses.

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Um outro post em blog do mesmo jornal, que apareceu um dia depois, complementa candidamente uma discussão de nível elevado sobre o papel da ciência na sociedade.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

SBPC e o pai dos oxímoros

Cansei-me de responder às barbaridades que algumas senhoras e alguns senhores da SBPC e ABC insistem em afirmar sobre o código florestal. Quem se interessar poderá ver aqui e aqui as críticas que fiz às cartas anteriores dessas sociedades científicas - críticas que foram quase completamente ignoradas.



O único que comentarei sobre esta última análise feita pelas associações é o seguinte: eu sou parte da academia, trabalho como pesquisador em tempo integral, e estou completamente em desacordo com a absoluta maioria do que os Srs. dizem. Não tentem fazer o público acreditar que vocês representam a ciência, pois ninguém o faz. A ciência, senhores, não é como certos deuses, que se personificam em papas, chamãs, ou pajés, e por meio deles transmitem as suas mensagens. A ciência só existe no campo das idéias, ou, mais precisamente, no campo do método analítico. Ela não se materializa, não existe como substância; é um processo, uma forma de se pensar.



Pretender que a ciência tenha uma posição sobre determinado assunto é se contradizer em termos. Por consequência, respeitáveis senhores e senhoras cientistas, a "posição da ciência" é o pai de todos os oxímoros.

A forma não se confunde com a matéria. A ciência é meio, processo. É uma ferramenta analítica precisa e lógica. Já a substância que é por ela processada é por natureza contraditória, fugidia. O resultado da aplicação da lógica científica a uma determinada matéria é, então, necessariamente impreciso. Em outras palavras: a essência da ciência é o contraditório.


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Para aqueles ferreiros que estão operando com ferramentas de pau, aqui vão duas tarefas de casa:

1. Stuart Mill e seu System of Logic
2. Karl Popper com seu The Logic of Scientific Discovery

Para uma leitura mais humanizada, e ainda assim respeitavelmente precisa, consultem On Scientific Method In Philosophy, de Bertrand Russel, onde encontrarão:

"the detailed scientific investigation of nature does not presuppose any such general laws as its results are found to verify. Apart from particular observations, science need presuppose nothing except the general principles of logic, and these principles are not laws of nature, for they are merely hypothetical, and apply not only to the actual world but to whatever is possible."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mantra verde - a cegueira do discurso fácil

Eduardo Giannetti é um grande pensador. Conhece a filosofia como poucos, tem um olhar crítico sobre o pensamento estreito da esquerda brasileira, e escreve de maneira encantadora. Eu mesmo deixei um texto dele fixo neste blog, na coluna aqui do lado direito - em que capturou muito bem o atual desafio do brasileiro. Mas a sua melhor contribuição escrita, a meu ver, foi um livrinho pouco conhecido, porém muito desafiador e criativo - "As partes e o todo", de 1995.



Hoje, no entanto, decepcionei-me com as idéias de Giannetti. Já faz algum tempo que eu venho acompanhando com preocupação o seu deslize para o mantra do politicamente correto. Ele foi um dos principais motivadores da campanha presidencial de Marina Silva, e isso só pode significar que não conseguiu enxergar as profundas limitações do enfoque sonhático. Mas bem, deslizes são deslizes.

sábado, 19 de março de 2011

On Saif Gaddafi & LSE




[For full disclosure: I am a PhD student at the LSE, and a very happy one].

Now that the dust has settled it is possible to have an adult conversation on the relation between the LSE and Gaddafi. First to the facts:

1 - Saif-al-Islam Gaddafi took a Master and a PhD degrees at the LSE.

2 - There are claim that Saif's PhD thesis contained plagiarism.


3 - The LSE offered consultancy services to Lybia.

4 - One LSE research centre received a £ 3 million donation from a fund managed by Said Gaddafi.

My positions:


1 - the school has a very respectable selection process - indeed the most disputed one in the UK - and none has given evidence that Saif shouldn't have been selected in the first place. However, if he was selected on the grounds that he was potentially the most influential person in Lybia's politics and therefore the school had a great chance to positively impact the development of that country, then (a) the school was right - present facts fully supports this claim - and (b) it was arguably morally grounded as well.


If you want to contend with (b) you will have to show that the potential negative impact of the LSE having one "unfit" student exceeded the potential overall benefit of the LSE influencing policy in a country such as Lybia.


2 -The thesis can be read here. Again it is not too much to stress that the PhD evaluation process at the LSE is a highly rigorous one and that there are no reasons to believe that it could have favoured someone on any grounds whatsoever.


If the inquiry that is currently being conducted by the school finds out that the claims are legitimate and there is evidence of plagiarism, then of course the PhD title given to him will be revoked as it shall happen to anyone in the same situation. But so far there seems to be no definitive evidence of plagiarism, so we had better to be cautious and wait.


The fact that he was given advice by top academics working for a US consultacy called "The Monitor Group" (which also happens to have received US$ 3 million from Gaddafi for consultancy services to Lybia) does not delegitimize his thesis in any way. Quite to the contrary. Every good PhD student takes advantage of opportunities to interact with people who may contribute to their research, and if these opportunities are of easy reach, all the better.


Neither does using data gathered by the cited consultancy hurt the value of his thesis in any possible sense. All of us PhDs rely on the availability of evidence to support the arguments that we make in our researches, and there should be no disapproval of someone who uses personal connections to obtain access to such empirical information. I am myself trying to use family connections to government officials to gain access to a database that is of no open access, and if I succeed I don't expect anyone to be able to convincingly argue that I took a morally or scientifically questionable action, let alone plagiarism related claims.


Even if plagiarism is found in Saif's thesis the attacks that have been made to LSE staff by uninformed emotional analysts and more generally throughout the media will not be grounded. Anyone who has been on a post-grad evaluator's position (I have so far been only on the opposite side of the table) knows that plagiarism can be quite hard to detect, so nobody ought to be judged solely for having approved a thesis containing plagiarism.


[By the way, some of the attackers are plagiarists themselves - I know of at least one -, and journalists are by far the champions of plagiarism.]



3 - The role of University is to positively impact the world through the production of solid and robust knowledge. The particular case of the LSE is that of a world-level social sciences school that has historically focused on "discovering the causes of things" and on development issues.


The fact that the school's staff is constantly requested to provide consultancy services to individuals, companies, cities and nations all around the world is but one sign that it produces relevant knowledge and is able to channel it to real life policy making processes. Now if a consultant is asked to offer advice to a dictator on whatever issues that are clearly relevant to a whole country, are there any reasons why she shouldn't accept?


I don't think so. Unless the advice asked is on "how to design a cost-effective way of killing citizens who protest against us", or similar themes, one can't miss the opportunity of causing a positive impact solely because one's advice may end up being used for the evil. If one is really to follow such a doctrine in a coherent fashion then the best is to abandon the consultancy enterprise altogether; or would one be able to sustain the decision of giving advice to Bush's USA? To Blair's UK? To Fidel's Cuba? To Obama's USA?


4 - Receiving money from Lybia was a risky decision taken by the LSE because Gaddafi had a history of doing crazy things and the media would have inevitably turned against anyone with links to him if he were to honour his record (e.g.: do another Lockerbie). But it was not morally reprehensible. Otherwise receiving money from the UK, US or China, and from companies such as Petrobrás (you can see why here - in Portuguese) would have to become morally reprehensible too. Or can it be proved that this company / these countries are not responsible for killing people?


I strongly support the LSE's decision of receiving money from / giving advice to Lybia and believe that it should continue accepting kind donations from anyone who believes in its commitment to sound scientific research and decisive efforts to influence the policy making process anywhere in the world.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Código Florestal

Segui o conselho do excelente artigo de opinião no jornal Estado de São Paulo e fui ler o parecer do Deputado Aldo Rebelo sobre a revisão do Código Florestal.


O articulista Denis Rosenfield tem a mais absoluta razão: o texto de Rebelo não merece as críticas que foram feitas pelo lobby ecologista. Mais além da erudição, o documento toca em questões que os ambientalistas insistem em evitar: por onde andam as florestas nativas da Europa e EUA? O que se fará com a pecuária subsidiada da Europa e EUA?


Vale a pena ler. O relatório, que pode ser baixado aqui, possivelmente se tornará a Bíblia do movimento pragmático e nacionalista que defende o desenvolvimento sustentável no Brasil, em oposição ao subdesenvolvimento sustentável.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Prova ANPEC

Muitos dos poucos leitores deste blog vêm em busca de informações sobre a prova da ANPEC. Disponibilizarei, então, os textos que redigi quando da preparação para a prova de economia brasileira, pois poderão ajudar àqueles que estão se iniciando no grande desafio!


Aqui estão:


-- política econômica da primeira república;
-- papel do Estado;
-- origem da industrialização;
-- inflação;
-- abertura dos anos 1990.


Boa sorte!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sobre economia e crematística

Aristóteles:

"A crematística natural reflete à economia doméstica, enquanto o comércio é a arte de criar riquezas não de qualquer modo, mas somente por meio da troca de bens. E é essa última forma, parece, que se relaciona com o dinheiro, pois o dinheiro é nesse caso elemento e limite da troca. Em consequência, essa forma de riqueza que provém da crematística assim definida é verdadeiramente sem limites (...) para esta forma de crematística não há limite para o seu fim, e seu fim é a riqueza e a aquisição de bens em sentido mercantil. Pelo contrário, a arte de adquirir riquezas para a administração da casa, totalmente diferente da crematística propriamente dita, tem um limite, e por outro lado a experiência de cada dia nos mostra que é o contrário que ocorre: pois todos os traficantes aumentam indefinidamente a sua reserva monetária (...) o uso não ocorre do mesmo modo nos dois casos (...) a forma doméstica da crematística tem em vista um fim distinto da acumulação de dinheiro, enquanto a segunda forma tem por fim a própria acumulação. Em consequência, alguns pensam que esta acumulação é também o papel da administração doméstica, e eles vivem continuamente na idéia de que seu dever é conservar intacta a sua reserva de moeda ou mesmo de aumentá-la indefinidamente. A razão dessa atividade é que eles se aplicam unicamente a viver, e bem viver, e como o apetite de viver é ilimitado, eles desejam meios de viver também ilimitados" (Aristóteles, Política).

Ruy Fausto comenta: o que se critica, assim, é propriamente a ausência de limite, quer na própria progressão da acumulação pela acumulação, quer na acumulação com vistas a um excesso de bem viver (Marx: lógica e política).

A economia neoclássica é, na verdade, crematística, pois não aceita qualquer noção de limite ao crescimento econômico (Juan Martinez-Alier).