O forasteiro sou eu, o careca é o Godelo, líder do projeto Tecido da Floresta, e os demais a família do Sr. Doriva e da Sra. Maria das Graças.
O texto a seguir é o resumo de algumas reportagens que encontrei sobre o assunto (que estão citadas no rodapé).
Os soldados da borracha, como eram chamados os trabalhadores que extraíam o látex da seringueira na Amazônia, estão se transformando em costureiros em Rondônia. Eles estão produzindo bolsas e acessórios com o Tecido da Floresta, um produto derivado da borracha nativa (látex), totalmente natural. A borracha é até hoje a principal fonte de renda para os habitantes tradicionais da floresta amazônica brasileira. Mas com a queda do seu preço, cada vez mais seringueiros estão fugindo da região ou migrando para atividades como a pecuária e a extração da madeira.
O desenvolvimento de produtos derivados do uso sustentável da floresta é uma das alternativas que a Coopflora, cooperativa que reúne seringueiros na região dos municípios de Machadinho do Oeste e Vale do Anari, em Rondônia, encontrou para ajudar na geração de emprego e renda às famílias locais. A principal dificuldade, segundo o presidente da Coopflora, Erni Santos Lima, é a resistência de alguns seringueiros em trabalharem associados. "Seringueiro não tem profissão reconhecida, não é o dono da terra e, por isso, está acostumado a vender a borracha aos donos, trabalhando como empregado. O que nós fazemos é um trabalho de conscientização no próprio habitat do seringueiro", declarou.
Terezinha de Paula mora em Vale do Anari, onde trabalhava como seringueira. Há dois anos ela iniciou a cooperativa junto com Erni, seu marido e também seringueiro, e hoje já se vêem os frutos em termos de geração de emprego e renda para as famílias locais.
A história da extração de látex inspirou a artesã a idealizar uma linha de produção de bolsas feitas com o Tecido da Floresta. Os soldados da borracha usavam sacos defumados,bolsas improvisadas feitas com o material extraído da árvore, para carregar seus pertences pelo meio da floresta e ao atravessar rios (os sacos são totalmente impermeáveis). Esse conhecimento tradicional do seringueiro é que formou a base criativa para o desenvolvimento do Tecido da Floresta.Transformar seringueiros em costureiros e designers não foi tarefa fácil. Terezinha e o marido foram buscar ajuda para implantar a idéia e assim surgiram parcerias com a Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR), Governo Estadual, Ministério do Meio Ambiente e Sebrae local. A criação é coletiva e os ex–seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. Em sua primeira visita a São Paulo, a convite da ONG WWF, Terezinha saiu em busca de oportunidades de negócios para sua novíssima linha de produção. Já conseguiu contato com uma importante marca que desfila no SPFW, que vai analisar as mantas, como são chamadas as peças do Tecido da Floresta, para utilizar em roupas e acessórios.
As peças já são vendidas em vários estados brasileiros - São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná -, e devem chegar ao mercado externo neste ano. "Alguns de nossos clientes já mandaram amostras para a Europa. Esperamos fechar a primeira exportação já no começo do ano", conta Erni.
O projeto existe há três anos e está inserido na metodologia da Gestão Estratégica Orientada para Resultados (Geor) do Sebrae. Segundo o coordenador do projeto, Lucimar Antonio Gonçalves, a cooperativa possui atualmente 47 associados, entre costureiros e seringueiros. O Sebrae vem desenvolvendo consultorias em gestão e tecnologia de produção para a cooperativa, que atua em oito reservas extrativistas. Para desenvolver o tecido, o Sebrae trouxe químicos para ajudar a suavizar o cheiro forte da borracha. Também foi feita uma pesquisa de aceitação de mercado, estruturação de um galpão e aquisição de máquinas de costura. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. "A transformação que está ocorrendo na vida desses seringueiros é muito grande. Alguns conseguiram aumentar sua renda em 100%. Em média, eles ganham R$ 500 por mês com as bolsas", diz Lima.
O processo começa com a coleta do látex da seringueira nativa. Após receber um tratamento, esse látex é aplicado em cima de uma base de tecido preparado e estendido em um bastidor. Em seguida, é vulcanizado por meio de defumação. A manta que surge fica exposta ao sol para "curar" por quarenta dias. Só então é classificada e transformada em bolsas e acessórios. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as peças. A capacitação dos seringueiros é feita pelos próprios integrantes do grupo. "Quando um descobre uma nova técnica repassa aos outros. É feita de forma solidária, ou seja, a cada novo seringueiro que entra para o projeto, um associado vai até a sua colocação (lugar onde o seringueiro mora e trabalha) e fica uma semana transmitindo os conhecimentos", conta o presidente.
Uma parceria entre a cooperativa e o Banco do Brasil irá possibilitar a montagem de uma oficina de produção das bolsas na própria cooperativa. Hoje as bolsas são terceirizadas. "A manta vai para a cooperativa e segue para costureiras terceirizadas. Queremos fazer a costura na própria cooperativa - afirma Gonçalves.
O Tecido da Floresta está ganhando mercado no país. A Coopflora está participando de feiras a convite do Sebrae, como a última edição da Biofach América Latina, a maior feira de orgânicos do Brasil, realizada em São Paulo. As bolsas também foram entregues como presente para a Presidência da República. Agora, a cooperativa procura empresas que queiram desenvolver produtos com o tecido. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail coopflora@gmail.com
Fontes:
Moda Pra Ler - http://modapraler.blogspot.com/2006/04/moda-feita-da-floresta.html
Ambiente em foco - http://www.ambienteemfoco.com.br/?p=6465
Agência de Notícias Brasil-Árabe - http://www.anba.com.br/pequena.php?id=143
Mais uma vez estou chocado por ter conhecido esta iniciativa somente agora. Se você fica impressionado ao ver um estudante universitário do Vale do Silício construindo idéias e produtos que se alinham perfeitamente com as necessidades tecnológicas da sociedade contemporânea, imagine um grupo de seringueiros de Rondônia que consegue dar andamento a um negócio que concilia perfeitamente as premissas ambientais, sociais, econômicas e culturais que caracterizam o desenvolvimento sustentável. E que transforma essa idéia em notícia pelos quatro cantos do país. É dessas pessoas que estou falando.
Tenho convicção de que empreendimentos como o Tecido da Floresta representam a saída para o desenvolvimento sustentável não apenas na Amazônia, mas em todo o Brasil. É preciso que essas atividades ganhem escala e tomem, um dia, o lugar da pecuária, da extração da madeira e da plantação de soja. Então, vamos fazer o trivial, divulgar!
Agradeço aos meus amigos Elizeu, da sucursal machadinhense da Secretaria estadual de Desenvolvimento Ambiental, e Godelo, porta-voz e apaixonado pela causa do Tecido da Floresta. Juntos vamos fazer uma visita de campo a esse empreendimento e trazer mais fotos e informações!