quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Guarani-Kaiowá

As redes sociais andam comovidas com um presumido massacre a indígenas do Mato Grosso do Sul. Diz-se mesmo que eles teriam anunciado o suicídio coletivo. Mas será que dá para comprarmos essas idéias tão facilmente?

Lunae Parracho/Reuters

Se você é do tipo que só precisa ver a foto de um índio morto pendurado em uma árvore e uma carta emocionada, supostamente escrita por índios, para ter fé em que há um bando de fazendeiros malvados matando indígenas indiscriminadamente no Mato Grosso do Sul, então pode ficar por aqui neste post, pois o seu senso crítico é mais adequado para leituras deste tipo.

se você resolveu continuar, é porque aceita que não devemos partir do princípio que os fazendeiros são santos ou que os indígenas são santos. O interessante é entendermos os fatos e fazermos, depois, uma avaliação de o que é justo e o que não é.

Os indígenas estão há anos aguardando a demarcação de terras que teriam pertencido aos seus antepassados há 100 anos. Aparentemente, já teria havido um decreto presidencial demarcando as terras, mas teria sido revogado pelo STF. Se foi revogado, é porque os direitos de propriedade das terras são disputados, e a Corte entendeu que as propriedades privadas que lá estão mantêm o direito à posse. Aqui já começamos a entender que se há fazendeiros protegendo terras, é bem possível que estejam amparados pela legalidade jurídica.

A linha verde é a fronteira entre o Brasil e o Paraguai, no Sul do MS. A linha vermelha demarca os limites do município de Paranhos, onde está localizado o problema, e as áreas coloridas são as reservas indígenas já demarcadas em definitivo na região.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dirceu e a PaTrulha: razão para otimismo?

Se o PT perder São Paulo, com certeza haverá motivo para festejarmos.

Já a condenação de Dirceu e de sua gangue petista não me deixa exaltado. A razão está em um paralelo histórico bem conhecido. A Itália - país que além de dominar muito melhor do que nós a sofisticada arte da enganação, tem um sistema judicial que historicamente se apegou com maior empenho à condenação de práticas anti-republicanas - passou nos anos 1990 por um processo de limpeza possivelmente mais sério do que o que estamos vivenciando hoje no Brasil.

A operação mãos limpas não só levou ao suicídio de dois altos executivos de empresas envolvidas no escândalo (que corresponderiam a Marcos Valério) e à fuga do país de ninguém menos do que o ex-presidente da República e então chefão do poderoso Partido Socialista - e da política italiana! -, Bettino Craxi, mas também condenou em torno de 1.400 pessoas em menos de 8 anos de investigações (Corriere della Sera).



Silvio Berlusconi e o então Presidente Bettino Crax, em famosa fotografia de 1984

Mesmo assim, a política italiana não parece ter mudado grande coisa. Em 2000, ano em que Craxi faleceu em seu exílio na Tunísia por complicações de diabetes, dos 1.400 condenados em definitiva pela operação mãos limpas, nada mais que 4 continuavam presos. Além disso, o reinado do maior dos mafiosos, Silvio Berlusconi, começara já em 1994 - ano em que as investigações estavam em seu auge -, ganhando força precisamente no período em que a magistratura se debrulhava para desconstruir os bilionárias esquemas de corrupção que se haviam instaurado nos anos 1980.

A foto acima se fez historica porque retratou a passagem do bastão de Craxi para Berlusconi: é como se este fosse o espelho daquele. Quando a justiça finalmente teve fôlego para de alguma forma atingir o núcleo do poder, derrubando um e arranhando outros, a criatura de Craxi já estava pronta para começar uma nova festa, com padrões contemporâneos e estilo inovador de assalto à coletividade.

Por isso, não acho que devamos nos iludir. A condenação do PT é histórica, sim, mas a limpeza da podridão de nossa sociedade exigirá esforço bem maior.

Será que temos um Berlusconi à nossa espera?

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ecologismo bobô em queda livre

O mundo muda depressa. E o sinal que mais me deixa otimista é o que indica que o verdismo bocó está em baixa. O primeiro - e mais importante - indício deste movimento é, não há dúvida, a maciça derrotaque sofreram o marinismo e seu time de ambientalistas vulgares no código florestal. Este acontecimento não deve ser desprezado, na medida em que o Brasil é a maior potência ambiental e ambientalista do mundo.


O segundo indício é o fato de que no mundo desenvolvido o questionamento do ecologismo bobô está ganhando espaço. Por exemplo, na França está sendo bastante comentada a última sátira de Iegor Gran, que pega no pé de quem pensa estar salvando o mundo ao comprar nas lojas "bio" do momento. Os seus dois livros de humor ácido sobre o movimento verde, "ONG !" (2003) e "L'écologie en bas de chez moi" (2011), têm ganhado espaço no país que não perdoa nem Maomé, e que formou o grande expoente da filosofia anti-ecolô, Luc Ferry.