domingo, 29 de junho de 2008

Rondônia, desmatamento, Amazônia

As dificuldades encontradas pelo IBAMA, em janeiro, para articular a operação arco de fogo em Rondônia são apenas um exemplo do desafio que representa a coordenação das ações Federais com os poderes locais da Amazônia. O posicionamento de boa parte dos políticos do Estado de Rondônia é a síntese do pensamento da absoluta maioria da população. Prepondera a visão de que desenvolver é construir estradas, hidrelétricas, alavancar o rebanho bovino e a indústria da madeira.
Ao mesmo tempo, seria difícil que se almejasse menos. A maior parte da população do Estado ainda está sujeita a déficit crônico de energia elétrica e a graves dificuldades de locomoção. Além disso, a nossa cultura essencialmente agrícola e a infra-estrutura da região não nos permitem vislumbrar maneiras muito diferentes de produzir do que agricultura, pecuária e extração de madeira. É essencial a evolução, na sociedade amazônica, da compreensão de que o desenvolvimento não se dará às custas da floresta, mas essa é uma mudança de longo prazo. No curto prazo, pouco será feito sem o apoio das lideranças locais e regionais, por menos receptivas que sejam à idéia de um novo tipo de desenvolvimento.
Existe um crescente setor já comprometido com a mudança do padrão produtivo. São eles (acadêmicos locais, empresários e indivíduos das mais diversas procedências) os principais aliados em potencial das iniciativas que pretendem sucesso, pois têm diálogo aberto com lideranças políticas, empresariado local e sociedade em geral.
Quando essas lideranças, que já têm sinergia com o desafio de um desenvolvimento mais sustentável, são colocadas na mesma categoria que grileiros, madeireiros irresponsáveis, pecuaristas irresponsáveis e todo tipo de agressor do meio ambiente e da sociedade, o que acontece é o fortalecimento destes últimos, que também têm acesso às lideranças locais e regionais. A dificuldade em envolver quem já trabalha por um novo modelo de desenvolvimento é o caminho para o sucesso dos que representam o que há de pior na Amazônia. É como a empresa que decide fazer uma ação social na favela, elabora um lindo plano, mobiliza seus funcionários e se dirige à comunidade para implementar a iniciativa sem nunca tê-la discutido com seu público-alvo. O mais provável é que se fortaleça a idéia de que a empresa não está comprometida com a comunidade, e saiam ganhando aqueles que vivem da sua exploração.
É urgente que as mais diversas iniciativas ligadas à Amazônia primem pela coordenação com o setor comprometido da sociedade local, colhendo a sua opinião e comprometimento. Que congressos que discutem a Amazônia sejam realizados em Porto Velho ou Ji-Paraná; que essas lideranças sejam incluídas na discussão de iniciativas como o Pacto Amazônico; que os planos do governo Federal passem por seu crivo; e, principalmente, que aqueles que trabalham para sensibilizar a maioria sobre a viabilidade de um desenvolvimento mais sustentável tenham sua atuação reconhecida e divulgada.
O sucesso de iniciativas ligadas à promoção de um novo padrão produtivo no território amazônico será, necessariamente, produto da coordenação entre as esferas Federal, Estadual e Municipal, a academia, a sociedade local, o setor privado local e as organizações não-governamentais. Essa não é condição suficiente para que se caminhe na direção correta, mas é necessária para o sucesso de qualquer caminhada. E sabemos que envolve uma complexidade de interesses políticos e econômicos, razão pela qual é a parte mais difícil do quebra-cabeças.