O debate em economia sobre a relação entre esses três importantíssimos conjuntos de variáveis se renovou nos últimos dez anos, com os trabalhos de Sokoloff e Engerman e de Acemoglu, Johnson e Robinson. Um grande conjunto de papers empíricos se seguiu e as hipóteses foram se refinando, até o ponto em que parece haver, hoje, um entendimento bem mais preciso da forma como geografia, instituições, e herança histórica interagem para determinar as possibilidades de desenvolvimento de uma sociedade.
É claro que o leitor treinado em história econômica no Brasil percebe, no mínimo, que as hipóteses testadas incansavelmente nesses papers já estavam postas no Brasil pelo menos desde 1942, quando Caio Prado Jr. escreveu a sua obra prima. Digo no mínimo porque, pessoalmente, vejo a maior parte da literatura recente como uma repetição das teorias e hipóteses presentes no trabalho de Celso Furtado, Caio Pradro Jr, e muitos outros.
Uma repetição feita sobre bases distintas, não há dúvidas, pois se antes os trabalhos eram pouco quantitativos (devido ao contexto intelectual e tecnológico da época), agora eles são centrados no teste estatístico de hipóteses. De todas as formas, na leitura dos papers atuais sempre fiquei com a nítida impressão de que possuem muitíssimo menos qualidade de detalhes e bem menos sofisticação intelectual do que os da velha guarda - é claro que o método dialético é dificilmente comparável à econometria, mas entre a frieza das regressões e a fineza da problematização discurssiva, eu fico com a última.
Detalhe: em nenhum dos trabalhos da nova geração há qualquer menção aos clássicos!
Um artigo, no entanto, me chamou a atenção por conciliar bem melhor o rigor econométrico com o reconhecimento do trabalho da velha geração e com um nível aceitável de descrição factual da história, além de uma certa problematização do objeto de estudo. Trata-se do artigo "Institutional Development and Colonial Heritage Within Brazil" (resumo em português aqui), da atual aluna de PhD em Harvard Joana Naritomi, do seu ex-professor na PUC / RJ Rodrigo Soares, e de Juliano Assunção, também da PUC / RJ. Esse trabalho, pela rápida pesquisa que fiz, foi a dissertação de mestrado de Joana na PUC / RJ, e já rendeu pelo menos uma publicação pela NBER.
Os autores procuram traçar os efeitos das instituições herdadas da metrópole portuguesa sobre uma série de variáveis institucionais cruciais para o desenvolvimento do Brasil. O estudo é desagregado por município, e o foco é nos sistemas socioeconômicos do açúcar, que se concentrou em municípios do Nordeste próximos à costa, e do ouro, que se concentrou no Centro-Sul do Brasil. As variáveis dependentes são um índice de governança municipal, o índice de Gini da distribuição da terra, e uma variável de acesso à justiça.
O estudo mostra de maneira bastante convincente que as instituições que emergiram do sistema açucareiro determinaram um grau de concentração da terra muito mais elevado do que no resto do país, e que no caso do ouro, o resultado foram índices de governança bastante piores e menos acesso à justiça.
Há muito mais detalhes interassantíssimos, e críticas a serem feitas ao paper - o leitor é convidado a refletir sobre ambos lendo o ótimo trabalho. Ao fazer isso, certamente perceberá que o trabalho de Naritomi e colegas é um raríssimo exemplo da maneira como o ferramental quantitativo pode ser aproveitado para se fazerem análises relevantes mesmo da história econômica, com importantes repercussões sobre a maneira como se entende o processo de desenvolvimento.