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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Amazônia tem vocação agrícola?


 Certo ambientalismo que não gosta de estudar história prefere acreditar que a Amazônia "tem vocação florestal, não agrícola". Indivíduos como João Paulo Capobiano, Marina Silva, Phillip Fearnside, entre muitos outros, escolheram ir na contramão do pensamento de alguns dos maiores conhecedores da história e ecologia da Amazônia, como Arthur Cézar Ferreira Reis e Samuel Benchimol, e defender que a região está destinada a ser um "santuário da vida silvestre, um banco genético com base na sua biodiversidade para aproveitamento futuro" (nas palavras do Prof. Benchimol).

Para mostrar que a Amazônia, desde que é conhecida como tal, apresenta vocação tanto florestal quanto agrícola, desmistificarei os argumentos do ambientalismo recorrendo às palavras do Sr. Francisco Xavier de Mendonça Furtado, em carta que, na condição governador do estado do Grão-Pará e Maranhão, escreveu ao Rei de Portugal em 22 de janeiro de 1752 (sublinhados meus).

domingo, 16 de setembro de 2012

Desde quando há boi na Amazônia?


A desconhecer a história do povoamento da Amazônia, poderíamos acreditar que a pecuária só chegou à região quando da vinda dos imigrantes sulistas nos anos 1960; ou, então, que o gado tivesse sido introduzido um pouco mais cedo, pelos imigrantes nordestinos que se deslocaram aos seringais do Acre e Amazonas durante os ciclos da borracha do Século 19 e início do 20.

Mas não é o caso. Sabe-se que o rebanho da ilha de Marajó crescia aceleradamente já na metade do Século 18, como atesta a carta do governador do Estado do Grão-Pará e Maranhão ao Rei de Portugal, de 23 de dezembro de 1751:

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Samuel Benchimol


Um dos grandes pensadores da Amazônia do Século 20. Vastíssimas obra sobre a história, economia, sociologia da região.

Escreveu, no ano 2000, pouco tempo antes de falecer, este texto que precisaria ser lido por todo amazônida. Arrisco-me a dizer que transmite de forma única as aspirações, as preocupações, da grande maioria das pessoas deste nosso imenso mundo amazônico.

Não deixe de ler "A Amazônia e o terceiro milênio", de Samuel Benchimol.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Os guetos da Amazônia profunda

George Monbiot é um ambientalista declarado, e um dos poucos que eu respeito e admiro. Posso não concordar com algumas de suas posições, mas é um cara que sabe submeter o pensamento ao crivo da lógica e dos fatos, e que se esforça para evitar racionínios chamânicos como os que professam os seguidores de Marina Selva. Na lista aqui do lado direito você encontrará o blog dele, que é fenomenal; neste post, você descubrirá que esse jornalista inglês já passou uma longa temporada no Brasil escrevendo um livro intitulado "Amazon watershed", publicado em 1991.





O trabalho de Monbiot é da mais alta qualidade. As suas colunas no jornal Guardian deixam qualquer um com vontade de rodar a fita até um futuro em que, quem sabe, o Brasil venha a ter jornalistas decentes. Monbiot saiu dos meios requintados de Londres, no final dos anos 1980, para viajar a Amazônia de ponta a ponta, sem medo de esmiuçá-la, expondo as suas entranhas e batendo de frente com lendas urbanas de todas as marcas. Aprendeu o português a ponto de ter tido longas conversas com garimpeiros em Roraima, fazendeiros no Maranhão, migrantes despossuídos no Pará, índios em Rondônia, entre outros. Perguntou, ouviu, perguntou, ouviu.. refletiu.. refletiu.. refletiu.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Por que eu sou a favor de Belo Monte?

Ou: por que ambientalistas e Globais odeiam números?



(vídeo colocado no yutube por autor anônimo)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Só desgraça na Amazônia? Post longo

Há quase dois meses escrevi um comentário crítico à "rede Amigos da Amazônia", da FGV. Recebi resposta de Malú Villela, que publico aqui junto com a minha mensagem original e com a minha tréplica enviada hoje. O debate é sobre a visão depressiva, pessimista, viesada que se constrói da Amazônia a partir de fora dela.


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Primeiro a mensagem mais recente: 3) Só desgraça na Amazônia? 3


Cara Malu,

muito obrigado pela sua resposta, e perdão pela demora em lhe retornar.

Achei interessantes o Catálogo Sustentável e a seção de debates sobre questões latentes. Não acho, porém, que resolvam o problema da imagem pessimista e negativista que a mídia nacional constrói da Amazônia como um todo, e do seu setor privado em particular.

A real solução é uma mudança epistemológica: olhar para a Amazônia com um olho dentro dela e outro fora. Pois quando se olha com os dois olhos fora, cai-se na armadilha de comparar indistintamente alhos com bugalhos, Ceará com Paraná, Tanzânia com Alemanha.

No Catálogo Sustentável há 26 iniciativas públicas nacionais, das quais 2 de localidades do Norte do país (uma do NE e outra do NO); das 15 iniciativas do setor privado, nenhuma é do Norte do Brasil. Por quê? Há realmente tão pouca criatividade e qualidade nos setores público e privado do Norte e Nordeste brasileiros?

O problema é que não há iniciativas privadas em Rondônia, Amazonas ou Acre, que sejam comparáveis com iniciativas do Pão de Açúcar, da Natura ou da Motorola, por razões óbvias. Assim como nenhum município do Brasil conseguirá realizar um evento cultural comparável à virada cultural de São Paulo. Mas há muitas iniciativas em Rondônia que se destacam em relação à realidade do estado, e que certamente irão determinar os rumos do setor privado do estado no futuro. São as empresas de ponta da realidade do Norte do Brasil.

Comparar as empresas do Norte com a de São Paulo é um equívoco que leva a resultado pré-determinado: a visão de que o setor privado do Norte é ruim, arcaico, etc, etc. É o mesmo que comparar o setor privado de Nairóbi com o de Londres.

Num olhar de dentro para fora, as iniciativas de sucesso em sustentabilidade na Amazônia passam a ser as daquelas empresas que conseguem *sobreviver e* fazer o que o Pão de Açúcar, a Natura e a Motorola já fizeram há muito tempo. Daquelas madeireiras que conseguiram se adaptar ao modelo de planos de manejo; dos pecuaristas que conseguiram recuperar APP; das cooperativas de artesanato que conseguiram de fato gerar renda a partir de materiais não-madeireiros da floresta; das rádios comunitárias que passaram a transmitir programações com temas ambientais. As iniciativas daquelas micro, pequenas e médias empresas que foram capazes de fazer mudanças positivas ao mesmo tempo em que se mantiveram vivas.

Isso é uma mudanças epistemológica. E só a visão de dentro para fora poderá causar um impacto construtivamente positivo no setor privado regional. Caso vocês da FGV queiram ver na prática como se faz isso, basta virem conversar com os empreendedores de carne e osso da Amazônia: nós, em Rondônia, Roraima, Tocantins, já usamos há decadas essas lentes.

Cordialmente,


1) Só desgraça na Amazônia?


Prezados, parabéns pela iniciativa. Tenho críticas a fazer, no entanto. A idéia de vocês é contribuir para o desenvolvimento sustentável da região amazônica, e não tenho dúvidas de que, sendo um consórcio de escola de negócios, empresas e outras organizações, vocês reconhecem que o setor privado local tem um importantíssimo papel nesse caminho. Por sinal, estou escrevendo porque sou de Rondônia e trabalho com pesquisa e na prática na mesma área que vocês. Uma pessoa que não tem a menor idéia daquilo que se passa na Amazônia - como, infelizmente, é a maior parte dos brasileiros - chegará ao site procurando aprender sobre o assunto e encontrará, entre outros, os seguintes títulos: "quem se beneficia com a destruição da Amazônia"; "exploração ilegal de madeira torna o clima tenso"; governo quer tirar o produtor rural da ilegalidade sem anistiar desmatador"; e o pior, uma frase de Luciana Betiol que diz, devido a uma infeliz ambiguidade, que a compra de madeira da Amazônia é um padrão insustentável de produção e de consumo. O leigo aprenderá no site de vocês que a maior parte do que se faz na Amazônia é ruim: exploração ilegal, insustentável, destruição, etc. Será essa visão adequada? Não existirá um outro lado que está sendo omitido? Eu tendo a acreditar que a Amazônia como é hoje tem tanto a ensinar ao mundo quanto tem a aprender, e isto também significa que, se comparada com regiões com grau semelhante de desenvolvimento, a Amazônia tem um setor empresarial incrivelmente dinâmico, maleável, e acima de tudo, batalhador. As empresas e pessoas que lá estão, em grande maioria, sobreviveram aos anos 1980 e 1990 de uma maneira que poucos de nós somos capazes de imaginar. Em síntese, estou seguro de que a campanha é absolutamente louvável, mas tenho a impressão de que, apesar de serem FGV, vocês não conseguiram escapar do  ideário depressivo, negativo, viesado, que impera na sociedade brasileira quando se trata de Amazônia. Uma mudança paradigmática é necessária também neste campo.

2) Só desgraça na Amazônia? 2


From: maluvillela@gmail.com on behalf of Malu Villela
Sent: Tue 5/4/2011 16:32
To: Vale,PM  (pgr)
Subject: Re: Comentários

Prezado Petterson,

Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecê-lo pelo interesse no site da Rede Amigos da Amazônia (www.raa.org.br) e pelos comentários deixados na seção "Fale Conosco", que é um espaço importante para que possamos receber críticas e sugestões em busca da construção de um melhor portal representativo da Rede.

As questões por você apontadas já faziam parte de um processo de reflexão da  Rede, quanto ao seu papel e contribuição para a sociedade, dentro de suas limitações e alcances. Temos repensado o site e seus espaços internos. Estamos em processo de criação de uma área para as experiências amazônicas, públicas e privadas, e que segue os moldes do site de um outro projeto que temos, o Catálogo Sustentável, que identifica exemplos de iniciativas públicas e privadas no tema do consumo sustentável. Veja em: http://www.catalogosustentavel.com.br/index.php?page=ConteudoSecao&idsecao=1
.

Com relação aos títulos das notícias que se encontravam no site quando de seu acesso, lamentavelmente está fora do nosso controle o conteúdo e freqüência com que reportagens ressaltando aspectos negativos da Amazônia são feitas e publicadas na mídia. No seu caso particular, cremos que no momento em que houve o acesso o cenário era de sucessivas notícias e
chamadas para estudos de denúncia. Podemos adiantar que já tivemos diversos momentos em que foi dado luz a  experiências públicas e privadas exitosas no bioma Amazônico.

Gostaríamos de adiantar, ainda, que, buscando a opinião do público para delinear o futuro da Rede, incluímos um link na página inicial denominado *"Mande sua sugestão"*, com a seguinte indagação: *"Que questões latentes na Amazônia você imagina que uma rede que reúne setor público, privado e sociedade civil em prol da conservação da floresta deveria abranger?"*. Dessa maneira, queremos construir, juntamente com o público, uma Rede que, de fato, articule todos os setores em prol da gestão integrada da Amazônia. Você também está convidado a responder a esta questão e a continuar nos encaminhando depoimentos e sugestões que nos ajudem, cada vez mais, a aprimorar o conteúdo do site.

Finalmente, agradecemos a sua ajuda ao identificar, na citação da Luciana Betiol, a ausência de duas palavras -* ilegal* e *predatório -*, que qualificam a madeira apontada como insustentável. Este equívoco já foi corrigido, uma vez que acreditamos que a madeira é um dos materiais mais sustentáveis que existem, desde que explorado de forma adequada.

Atenciosamente,

Equipe RAA

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vida de seringueiro: tecido da floresta 2

Eu e dois amigos fizemos uma visita às comunidades que produzem o Tecido da Floresta. Foi um passeio interessantíssimo!
Primeiro fui levado à sede da Coopflora, em Machadinho do Oeste.















Ao entrar, encontrei uma amostra das bolsas que os artesãos produzem com o Tecido da Floresta. E a minha impressão, de leigo em assuntos de moda, é de que as bolsas são muito bem feitas, especialmente se considerarmos que são 100% artesanais. As máquinas que se vêem do lado direito da foto foram recém adquiridas e ainda não estão em uso, mas já são motivo para muito otimismo por parte dos seringueiros, porque agora poderão produzir em escala bem maior.
Dêem uma olhada nos produtos:













Para se ter uma idéia, a matéria-prima tem esta cara:




















A visita começou na RESEX (Reserva Extrativista) Quariquara, uma reserva estadual que pode ser explorada legalmente pelas populações tradicionais (e somente por elas), os seringueiros, e é gerida pela SEDAM (Secretaria estadual do Desenvolvimento Ambiental) e pela ASMOREX (Associação dos Moradores da Reserva Extrativista). Lá conheci a família do Sr. Dorival Bindá e da Sra. Maria das Graças Bindá:

O forasteiro sou eu, o careca é o Godelo, líder do projeto Tecido da Floresta, e os demais a família do Sr. Doriva e da Sra. Maria das Graças.
Eis a vista da casa deles:



Mais adiante fomos à casa do Sr. Tiago:
U Tiag uma veiz foi atacad puma onça. Eis tava im treis cumpanhêru i um deis ficô cum med i trepô logo numa arvi... num tinha crist que descessi u caboc di lá.. a onça vinu pa cima du Tiagu, u cumpanhêru im riba da arvi i u otu passanu a mão num facão pá vê si dava jeit de matá éa. Quand a onça pulô im riba du Tiagu ei garrô nu pescoço déa i tentô sigurá a murdida da bicha.. sigura daqui, sigura dali i sigura di lá i u cumpanhêru du facão chegô pur tráis i mandô vê u facão néa. U Tiagu levô dentada nu naríis, nu peitu i na urêia, mais si safô dais bocada mais ferois.
Dispois nóis ia matá u cabocu qui feiz aquéa cuvardia, mais otus cumpanhêru acalmô nóis i pidiu
qui dexássi u ómi pa lá.. qui u med éra qui tinha guvernadu ei.
A casa do Sr. Tiago é do tipo tradicional:

















As ferramentas de trabalho do Sr. Tiago:

E a carne seca!

No caminho para a casa do Sr. Tiago, o nosso guia veio nos explicando como funciona o trabalho dos seringueiros.




















Cada família de seringueiros recebe uma “colocação” dentro da reserva. É um pedaço da RESEX que pode ser explorado de uma determinada maneira, ditada pela lei. Por exemplo, segundo essa lei um percentual da colocação pode ser desmatado e o resto deve ser utilizado para a extração da seringa. Além disso, as Associações de Moradores podem fazer planos de manejo e extrair madeira das reservas de maneira sustentável, gerando renda a ser repartida dentro da comunidade.
O seringueiro mapeia as árvores de seringa que existem em sua colocação e produz uma “rua”, um caminho que liga a casa dele a todas as seringueiras de sua colocação. Assim, ao transitar pela rua ele encontrará todas as seringueiras de sua propriedade.
A extração do látex se dá através de cortes na planta que são feitos de maneira a que o leite caia dentro de um recipiente (cumbuca).











Na foto com o nosso guia, a cumbuca está virada para baixo.
À medida que o leite cai dentro da cumbuca ele vai se coagulando, até que se transforma no cernambi:
Os cortes são feitos a cada dois ou três dias em todas as árvores, e somente nos meses de agosto e setembro não se cortam as seringueiras, porque é a época do florio e deve-se deixá-las repousarem. Se uma seringueira deixar de ser cortada por um longo período de tempo, haverá um acúmulo de leite provocando o rachamento do tronco, o coprometimento da casca e gradativamente a morte da árvore.
Quando um dos lados da seringueira já está todo cortado, corta-se o outro lado. Quando este também já está completo, a casca que havia sido cortada do lado anterior já se terá regenerado, de modo que se pode retornar àquele lado.
Não se deve cortar antes de uma chuva, porque a cumbuca fica cheia de água e o leite cai na terra. Se a chuva vier algum tempo depois do corte, quando o leite já se solidificou, não há nenhum problema.
Os seringueiros reúnem os cernambis (o látex coagulado nas cumbucas) em um saco encauchado (impermeabilizado com o látex da própria seringueira), e após procederem à prensagem de conjuntos de cernambis que totalizam aproximadamente 30 Kg, vendem as peças prensadas para as indústrias de beneciamento de borracha (a produção de 1 Kg de cernambi demanda entre 3 e 4 litros de látex). Essa venda é intermediada pelas cooperativas de seringueiros, que pagam R$ 2,00 pelo Kg de cernambi. Alguns seringueiros acreditam que o preço que recebem é muito baixo, se for considerado o valor que a cooperativa recebe. Mas eles não têm a informação de qual é este último valor.
A alternativa a esse comércio é a venda para a Coopflora, a cooperativa dos povos da floresta, que produz o Tecido da Floresta, para quem os seringueiros podem vender o leite ou as mantas já prontas. Caso optem pela venda do leite, devem depositar nas cumbucas algumas gotas de amônia para impedir a coagulação do látex. Assim, após algumas horas de escorrimento do leite, o seringueiro retorna ao local e recolhe o leite nos sacos encauchados, armazenando-o em vazilhames e vendendo para a coopflora: o preço atual de um litro é de R$ 2,00. Se optar pela produção da manta, pode vendê-la por um preço que vai de R$ 7,00 a R$ 18,00, dependendo da qualidade, sendo que o consumo de látex é de aproximadamente 1,5 L.
Um seringueiro tem uma renda média mensal de R$ 400,00 se vender o látex diretamente à cooperativa. Mas o Tecido da Floresta pode fazer com que essa renda suba para R$ 1000,00, uma vez que tanto a venda do leite quanto a venda da manta são mais lucrativas do que a venda do cernambi.
As mantas são tradicionalmente utilizadas pelas populações tradicionais para a confecção de sacos impermeáveis bastante simples, como o da foto (chamado pelas populações tradicionais de "saco encauchado") :
Esses sacos não permitem que a tralha se molhe e ao mesmo tempo a fazem flutuar no rio, em caso de acidentes ou quando se estiver atravessando o rio a nado, já que ao ter a boca amarrada ficam cheios de ar.
Também podem ser matéria-prima para a costura de ótimas jaquetas:


A produção do tecido é feita de maneira totalmente artesanal, e utilizando a matéria-prima da floresta. Cada família de seringueiros tem, ao lado de sua casa, uma pequena oficina de produção do tecido.

O primeiro passo é acender o fogo para que se possa derreter o látex. Utilizam-se coquinhos como combustível e uma fornalha artesanal, que tem um enorme buraco logo ao lado para que haja circulação de oxigênio:


Após a colheita dos coquinhos, se acende o fogo com látex e se jogam os coquinhos combustíveis em cima:
















Feito isso, o látex é derretido com o calor e esparramado uniformemente sobre uma tela de algodão, de modo a formar uma manta. As fotos a seguir mostram as telas de algodão, o látex antes de ser derretido e a cumbuca utilizada para esparramá-lo, já no estado líquido, sobre a tela de algodão:





















E o resultado final:



Por enquanto é isso!!!

Agradeço imensamente aos meus amigos Elizeu (que aparece na foto vestindo a jaqueta), chefe da SEDAM de Machadinho do Oeste, e ao Godelo (que aparece segurando a tela de algodão), presidente da Coopflora, por terem me possibilitado esse incrível passeio.
Quem quiser comprar o material produzido por esse pessoal pode entrar em contato comigo!
Abraço

domingo, 29 de junho de 2008

Rondônia, desmatamento, Amazônia

As dificuldades encontradas pelo IBAMA, em janeiro, para articular a operação arco de fogo em Rondônia são apenas um exemplo do desafio que representa a coordenação das ações Federais com os poderes locais da Amazônia. O posicionamento de boa parte dos políticos do Estado de Rondônia é a síntese do pensamento da absoluta maioria da população. Prepondera a visão de que desenvolver é construir estradas, hidrelétricas, alavancar o rebanho bovino e a indústria da madeira.
Ao mesmo tempo, seria difícil que se almejasse menos. A maior parte da população do Estado ainda está sujeita a déficit crônico de energia elétrica e a graves dificuldades de locomoção. Além disso, a nossa cultura essencialmente agrícola e a infra-estrutura da região não nos permitem vislumbrar maneiras muito diferentes de produzir do que agricultura, pecuária e extração de madeira. É essencial a evolução, na sociedade amazônica, da compreensão de que o desenvolvimento não se dará às custas da floresta, mas essa é uma mudança de longo prazo. No curto prazo, pouco será feito sem o apoio das lideranças locais e regionais, por menos receptivas que sejam à idéia de um novo tipo de desenvolvimento.
Existe um crescente setor já comprometido com a mudança do padrão produtivo. São eles (acadêmicos locais, empresários e indivíduos das mais diversas procedências) os principais aliados em potencial das iniciativas que pretendem sucesso, pois têm diálogo aberto com lideranças políticas, empresariado local e sociedade em geral.
Quando essas lideranças, que já têm sinergia com o desafio de um desenvolvimento mais sustentável, são colocadas na mesma categoria que grileiros, madeireiros irresponsáveis, pecuaristas irresponsáveis e todo tipo de agressor do meio ambiente e da sociedade, o que acontece é o fortalecimento destes últimos, que também têm acesso às lideranças locais e regionais. A dificuldade em envolver quem já trabalha por um novo modelo de desenvolvimento é o caminho para o sucesso dos que representam o que há de pior na Amazônia. É como a empresa que decide fazer uma ação social na favela, elabora um lindo plano, mobiliza seus funcionários e se dirige à comunidade para implementar a iniciativa sem nunca tê-la discutido com seu público-alvo. O mais provável é que se fortaleça a idéia de que a empresa não está comprometida com a comunidade, e saiam ganhando aqueles que vivem da sua exploração.
É urgente que as mais diversas iniciativas ligadas à Amazônia primem pela coordenação com o setor comprometido da sociedade local, colhendo a sua opinião e comprometimento. Que congressos que discutem a Amazônia sejam realizados em Porto Velho ou Ji-Paraná; que essas lideranças sejam incluídas na discussão de iniciativas como o Pacto Amazônico; que os planos do governo Federal passem por seu crivo; e, principalmente, que aqueles que trabalham para sensibilizar a maioria sobre a viabilidade de um desenvolvimento mais sustentável tenham sua atuação reconhecida e divulgada.
O sucesso de iniciativas ligadas à promoção de um novo padrão produtivo no território amazônico será, necessariamente, produto da coordenação entre as esferas Federal, Estadual e Municipal, a academia, a sociedade local, o setor privado local e as organizações não-governamentais. Essa não é condição suficiente para que se caminhe na direção correta, mas é necessária para o sucesso de qualquer caminhada. E sabemos que envolve uma complexidade de interesses políticos e econômicos, razão pela qual é a parte mais difícil do quebra-cabeças.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Tecido da Floresta!

Há alguns dias participei de uma reunião da ASMOREX (associação dos moradores da reserva extrativista) Rio Preto - Jacundá, e conheci uma iniciativa que me deixa muito orgulhoso e esperançoso em relação ao desenvolvimento do meu município (Machadinho do Oeste) e da Amazônia como um todo. É o "Tecido da Floresta". Uma maneira criativa de utilizar o conhecimento tradicional dos seringueiros amazônicos para gerar renda para a comunidade sem agredir o meio ambiente.

O texto a seguir é o resumo de algumas reportagens que encontrei sobre o assunto (que estão citadas no rodapé).

Os soldados da borracha, como eram chamados os trabalhadores que extraíam o látex da seringueira na Amazônia, estão se transformando em costureiros em Rondônia. Eles estão produzindo bolsas e acessórios com o Tecido da Floresta, um produto derivado da borracha nativa (látex), totalmente natural. A borracha é até hoje a principal fonte de renda para os habitantes tradicionais da floresta amazônica brasileira. Mas com a queda do seu preço, cada vez mais seringueiros estão fugindo da região ou migrando para atividades como a pecuária e a extração da madeira.

O desenvolvimento de produtos derivados do uso sustentável da floresta é uma das alternativas que a Coopflora, cooperativa que reúne seringueiros na região dos municípios de Machadinho do Oeste e Vale do Anari, em Rondônia, encontrou para ajudar na geração de emprego e renda às famílias locais. A principal dificuldade, segundo o presidente da Coopflora, Erni Santos Lima, é a resistência de alguns seringueiros em trabalharem associados. "Seringueiro não tem profissão reconhecida, não é o dono da terra e, por isso, está acostumado a vender a borracha aos donos, trabalhando como empregado. O que nós fazemos é um trabalho de conscientização no próprio habitat do seringueiro", declarou.

Terezinha de Paula mora em Vale do Anari, onde trabalhava como seringueira. Há dois anos ela iniciou a cooperativa junto com Erni, seu marido e também seringueiro, e hoje já se vêem os frutos em termos de geração de emprego e renda para as famílias locais.

A história da extração de látex inspirou a artesã a idealizar uma linha de produção de bolsas feitas com o Tecido da Floresta. Os soldados da borracha usavam sacos defumados,bolsas improvisadas feitas com o material extraído da árvore, para carregar seus pertences pelo meio da floresta e ao atravessar rios (os sacos são totalmente impermeáveis). Esse conhecimento tradicional do seringueiro é que formou a base criativa para o desenvolvimento do Tecido da Floresta.

Transformar seringueiros em costureiros e designers não foi tarefa fácil. Terezinha e o marido foram buscar ajuda para implantar a idéia e assim surgiram parcerias com a Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR), Governo Estadual, Ministério do Meio Ambiente e Sebrae local. A criação é coletiva e os ex–seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. Em sua primeira visita a São Paulo, a convite da ONG WWF, Terezinha saiu em busca de oportunidades de negócios para sua novíssima linha de produção. Já conseguiu contato com uma importante marca que desfila no SPFW, que vai analisar as mantas, como são chamadas as peças do Tecido da Floresta, para utilizar em roupas e acessórios.

As peças já são vendidas em vários estados brasileiros - São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná -, e devem chegar ao mercado externo neste ano. "Alguns de nossos clientes já mandaram amostras para a Europa. Esperamos fechar a primeira exportação já no começo do ano", conta Erni.

O projeto existe há três anos e está inserido na metodologia da Gestão Estratégica Orientada para Resultados (Geor) do Sebrae. Segundo o coordenador do projeto, Lucimar Antonio Gonçalves, a cooperativa possui atualmente 47 associados, entre costureiros e seringueiros. O Sebrae vem desenvolvendo consultorias em gestão e tecnologia de produção para a cooperativa, que atua em oito reservas extrativistas. Para desenvolver o tecido, o Sebrae trouxe químicos para ajudar a suavizar o cheiro forte da borracha. Também foi feita uma pesquisa de aceitação de mercado, estruturação de um galpão e aquisição de máquinas de costura. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. "A transformação que está ocorrendo na vida desses seringueiros é muito grande. Alguns conseguiram aumentar sua renda em 100%. Em média, eles ganham R$ 500 por mês com as bolsas", diz Lima.

O processo começa com a coleta do látex da seringueira nativa. Após receber um tratamento, esse látex é aplicado em cima de uma base de tecido preparado e estendido em um bastidor. Em seguida, é vulcanizado por meio de defumação. A manta que surge fica exposta ao sol para "curar" por quarenta dias. Só então é classificada e transformada em bolsas e acessórios. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as peças. A capacitação dos seringueiros é feita pelos próprios integrantes do grupo. "Quando um descobre uma nova técnica repassa aos outros. É feita de forma solidária, ou seja, a cada novo seringueiro que entra para o projeto, um associado vai até a sua colocação (lugar onde o seringueiro mora e trabalha) e fica uma semana transmitindo os conhecimentos", conta o presidente.

Uma parceria entre a cooperativa e o Banco do Brasil irá possibilitar a montagem de uma oficina de produção das bolsas na própria cooperativa. Hoje as bolsas são terceirizadas. "A manta vai para a cooperativa e segue para costureiras terceirizadas. Queremos fazer a costura na própria cooperativa - afirma Gonçalves.

O Tecido da Floresta está ganhando mercado no país. A Coopflora está participando de feiras a convite do Sebrae, como a última edição da Biofach América Latina, a maior feira de orgânicos do Brasil, realizada em São Paulo. As bolsas também foram entregues como presente para a Presidência da República. Agora, a cooperativa procura empresas que queiram desenvolver produtos com o tecido. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail coopflora@gmail.com


Fontes:

Moda Pra Ler - http://modapraler.blogspot.com/2006/04/moda-feita-da-floresta.html
Ambiente em foco - http://www.ambienteemfoco.com.br/?p=6465
Agência de Notícias Brasil-Árabe - http://www.anba.com.br/pequena.php?id=143

Mais uma vez estou chocado por ter conhecido esta iniciativa somente agora. Se você fica impressionado ao ver um estudante universitário do Vale do Silício construindo idéias e produtos que se alinham perfeitamente com as necessidades tecnológicas da sociedade contemporânea, imagine um grupo de seringueiros de Rondônia que consegue dar andamento a um negócio que concilia perfeitamente as premissas ambientais, sociais, econômicas e culturais que caracterizam o desenvolvimento sustentável. E que transforma essa idéia em notícia pelos quatro cantos do país. É dessas pessoas que estou falando.

Tenho convicção de que empreendimentos como o Tecido da Floresta representam a saída para o desenvolvimento sustentável não apenas na Amazônia, mas em todo o Brasil. É preciso que essas atividades ganhem escala e tomem, um dia, o lugar da pecuária, da extração da madeira e da plantação de soja. Então, vamos fazer o trivial, divulgar!

Agradeço aos meus amigos Elizeu, da sucursal machadinhense da Secretaria estadual de Desenvolvimento Ambiental, e Godelo, porta-voz e apaixonado pela causa do Tecido da Floresta. Juntos vamos fazer uma visita de campo a esse empreendimento e trazer mais fotos e informações!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Um passeio pela Amazônia

Pessoal, abaixo estão as fotos de meu mais recente passeio pela maravilhosa selva que fica ao lado de minha casa, em Machadinho do Oeste, Rondônia. Possivelmente vai ser difícil acreditar que eu morei aqui durante 13 anos e só agora fui conhecer essa parte do meu município, mas é verdade. As pessoas que vieram do Centro-Sul do país nas décadas de 70 e 80 atraídas pelos benefícios oferecidos pelo governo militar não trouxeram a vontade de conhecer a floresta e aprender a viver nela, mas sim o desejo de aqui reproduzir o modelo de desenvolvimento que haviam aprendido com seus pais e que havia sido transmitido por gerações, que é um modelo baseado em agricultura e criação extensiva de rebanhos animais. Mas que definitivamente não tem nada a ver com a peculiaridade deste paraíso verde.
Nesta redescoberta de minha própria casa senti repentinamente que agora posso dizer que vivo na Amazônia. E é isso que está retratado nas fotos abaixo.
Os olhos desse pequeno ribeirinho retratam a curiosidade que me guiou e me trouxe grandes descobertas no último dia 04 de janeiro.

Abaixo uma embarcação européia que foi abandonada (provavelmente há muito tempo) nas proximidades do Porto II de novembro, na margem esquerda do rio Machado, um afluente do rio Madeira que corta o estado de Rondônia.














A equipe de exploradores:


E o capitão da embarcação:

Antes de irmos para fotos que se esforçam bastante para reproduzir um pedacinho da exuberância daquela selva, um momento de reflexão.

A seguir a visita que fizemos a uma família de ribeirinhos que vive em um dos lugares mais explêndidos jamais vistos. A primeira foto dá uma mínima idéia do visual da casa deles, que fica protegida por um igarapé que atravessamos em uma pequena canoa, sob o comando do nosso experiente amigo "tenente".

















E aqui foi onde encontramos o nosso projetinho de índio, que aparece na foto junto com suas irmãs.






Seguindo viagem rio abaixo chegamos na comunidade Monte Sinai, um lugar paradisíaco. A foto que tem as panelas no fundo mostra a casa do Sr. Evelásio e da Sra. Diva, pessoas maravilhosas que fundaram uma organizada e próspera vila de pescadores no meio da floresta. A casa da dona Diva é uma imensa palafita que guarda iguarias como o bolo de fubá mais gostoso jamais provado. Eu pagaria muito caro para passar alguns dias hospedado na casa daquela maravilhosa família.



















Não acredito que um lugar possa ser mais saudável para crianças do que a comunidade Monte Sinai. As fotos não me deixam mentir.

























A última parada da margem esquerda do Machado (também conhecido como Machadão para diferenciá-lo do Machadinho, um de seus afluentes que deu nome à minha cidade) foi na casa do Jão escuro, filho de um soldado da borracha e pai de uma grande e bonita família.








































E a foto mais bonita de todo o passeio!



Espero que tenham gostado e venham conhecer estas maravilhas. Está todo mundo convidado!
Um abraço.