Nueva Constitución Política del Estado, Evo Morales e outros temas

Para os que se interessarem, é possível baixar a "nueva constitución política del Estado" da Bolívia, aprovada em dezembro de 2007 por uma assembléia constituinte em que não estavam presentes os membros dos partidos da oposição a Evo Morales.
A Carta contém reflexões dignas de atenção num país onde o segregacionismo racial é muito forte e existe um quase apartheid, particularmente nas grandes cidades orientais (Santa Cruz de La Sierra é a maior delas), sendo as vítimas os próprios povos nativos do ocidente do país, pejorativamente chamados de "collas" pelos povos do ocidente, principalmente dos Departamentos - divisão política correspondente ao estado no Brasil - de Santa Cruz, Beni e Pando. Por exemplo, se propõe que as 36 línguas faladas no país sejam reconhecidas como línguas oficiais e que cada Departamento deva adotar duas delas para as formalidades governamentais, sendo que uma deve ser o castelhano, obrigatoriamente. Além disso, a Bolivia seria um Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário, livre, independente, soberano, democrático, intercultural, descentralizado e com autonomias. O que significa que a cada uma das nações indígenas originárias é garantido o direito da autonomia, autogestão e consolidação de suas próprias instituições. Sendo que "es nación y pueblo indígena originario campesino toda la colectividad humana que comparta identidad cultural, idioma, tradición histórica, instituciones, territorialidad y cosmovisión, cuya existencia es anterior a la invasión colonial española." Em suma, é uma tentativa de experiência inovadora de consolidação de nação multicultural depois de séculos de dominação política e cultural e de discriminação dos povos indígenas.
A experiência do Equador parece ir na mesma linha da Bolívia, e também é digna de análise e de comparação, principalmente pela institucionalização do caráter multicultural do país. É uma reforma que deverá ser acompanhada atentamente nos próximos anos, pois o seu sucesso pode signifcar um marco na organização de sociedades pós-coloniais marcadas pela fragmentação, como é também o caso de muitos dos países africanos.
Outros aspectos interessantes da proposta de nova constituição são a proibição à instalação de bases militares estrangeiras, o direito ao voto para os bolivianos residentes no exterior e a garantia da propriedade privada, apesar de o Estado se reservar o direito da expropriação quando avaliar necessário e benéfico ao interesse público, conforme justa indenização (ou seja, na prática, não haveria propriedade privada!). Além, é claro, da manutenção do caráter federalista do Estado, em que a receita tributária é centralizada e distribuída de acordo com critérios de justiça em com vistas a atenuar as desigualdades regionais. Países europeus souberam lidar com ameaças à manutenção do federalismo, como a Itália e a Alemanha, que concederam autonomia fiscal a alguns de seus estados. Esse é o caminho que a Bolívia provavelmente seguirá.
A proposta de Carta constitucional, que Evo deseja colocar em votação nacional o mais rápido possível, não é aceita pela oposição como proposta legítima, entre muitos outros motivos, por ter sido produzida numa sessão constituinte em que partidários do atual presidente vindos de todo o país cercaram a assembléia, que foi improvisada em Sucre, a capital histórica, e não permitiram que os constituintes saíssem antes que a carta estivesse totalmente terminada. Há duas versões para a ausência da oposição: a de que o fizeram em protesto à falta de cumprimento das formalidades exigidas pela constituição em vigor para a instalação de uma constituinte, e a de que foram impedidos de entrar pela multidão que cercava o local.
Mas o que está de fato em questão são, inegavelmente, dois temas: o caráter federalista do Estado e a reforma agrária. O primeiro tema é mais recente, e deriva do fato que boa parte das reservas de gás natural se encontram no Departamento de Tarija, que em busca da retenção de maior parte dos royalties da exploração desse recurso tornou-se integrante da chamada meia-lua autonomista. Tarija nunca foi um Departamento totalmente identificado com a causa "camba" (auto-denominação dos povos orientas para se distinguirem dos "collas"). Em relação ao segundo tópico, o governo Evo Morales promove a redistribuição de terras há pelo menos dois anos, e o foco são as planícies agriculturáveis da região amazônica, pois os topos das montanhas andinas não são de interesse para esse tipo de política. É fato que seria quase impossível promover uma redistribuição de ativos dentro do país sem a recorrência a algum tipo de desordem social, na medida em que são feridos interesses estabelecidos; por outro lado, aceitar os métodos violentos que a esquerda mais radical sempre defende significa se render à ideologia de que a autocracia do proletariado é a solução de todos os males. Temos que aceitar a revolução como única solução aos gravíssimos problemas enfrentados por um país como a Bolívia? Basta estudar a história do país para se verificar que no último Século não houve sequer um quinquênio em que a estabilidade política superasse as movimentações golpistas e revolucionárias. E o resultado está aí.
Há outras questões envolvidas. O Departamento de Chuquisaca, de população majoritariamente indígena, é o centro da aristocracia do país, pois sediou durante muito tempo a capital (Sucre). Uma espécie de Rio de Janeiro, com seus resquícios aristocráticos (Vera Loyola e cia). Dividido entre o apoio à questão indígena e a defesa de Sucre como capital nacional, acabou de associando à meia-lua autonomista em protesto à falta de interesse de Evo em atender as suas reivindicações. Além da duração do mandato de Evo e da possibilidade de reeleição indefinida, que faria dele uma espécie de Robert Mugabe da América do Sul.
Não restam dúvidas de que a situação de exclusão social existente no país precisa ser resolvida, e que a elite econômica irá usar muito eficientemente o racismo dos cambas para voltá-los contra qualquer tentativa de mudança da estrutura social, política e econômica. Também não se quiestiona o fato de que embaixadores que se metem em assuntos internos, inclusive financiando grupos políticos, devem convidados a se retirar, pois precisamos dar um fim à ingerência praticada pelos EUA sobre os assuntos latino-americanos. Ou seja, a agenda é relevante e deve ser levada adiante, mas há sérias dúvidas quanto aos métodos. Por que não seria possível copiar o modelo brasileiro de assembléia constituinte, de 1988?

Para os que se interessarem, é possível baixar a "nueva constitución política del Estado" da Bolívia, aprovada em dezembro de 2007 por uma assembléia constituinte em que não estavam presentes os membros dos partidos da oposição a Evo Morales.
A Carta contém reflexões dignas de atenção num país onde o segregacionismo racial é muito forte e existe um quase apartheid, particularmente nas grandes cidades orientais (Santa Cruz de La Sierra é a maior delas), sendo as vítimas os próprios povos nativos do ocidente do país, pejorativamente chamados de "collas" pelos povos do ocidente, principalmente dos Departamentos - divisão política correspondente ao estado no Brasil - de Santa Cruz, Beni e Pando. Por exemplo, se propõe que as 36 línguas faladas no país sejam reconhecidas como línguas oficiais e que cada Departamento deva adotar duas delas para as formalidades governamentais, sendo que uma deve ser o castelhano, obrigatoriamente. Além disso, a Bolivia seria um Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário, livre, independente, soberano, democrático, intercultural, descentralizado e com autonomias. O que significa que a cada uma das nações indígenas originárias é garantido o direito da autonomia, autogestão e consolidação de suas próprias instituições. Sendo que "es nación y pueblo indígena originario campesino toda la colectividad humana que comparta identidad cultural, idioma, tradición histórica, instituciones, territorialidad y cosmovisión, cuya existencia es anterior a la invasión colonial española." Em suma, é uma tentativa de experiência inovadora de consolidação de nação multicultural depois de séculos de dominação política e cultural e de discriminação dos povos indígenas.
A experiência do Equador parece ir na mesma linha da Bolívia, e também é digna de análise e de comparação, principalmente pela institucionalização do caráter multicultural do país. É uma reforma que deverá ser acompanhada atentamente nos próximos anos, pois o seu sucesso pode signifcar um marco na organização de sociedades pós-coloniais marcadas pela fragmentação, como é também o caso de muitos dos países africanos.
Outros aspectos interessantes da proposta de nova constituição são a proibição à instalação de bases militares estrangeiras, o direito ao voto para os bolivianos residentes no exterior e a garantia da propriedade privada, apesar de o Estado se reservar o direito da expropriação quando avaliar necessário e benéfico ao interesse público, conforme justa indenização (ou seja, na prática, não haveria propriedade privada!). Além, é claro, da manutenção do caráter federalista do Estado, em que a receita tributária é centralizada e distribuída de acordo com critérios de justiça em com vistas a atenuar as desigualdades regionais. Países europeus souberam lidar com ameaças à manutenção do federalismo, como a Itália e a Alemanha, que concederam autonomia fiscal a alguns de seus estados. Esse é o caminho que a Bolívia provavelmente seguirá.
A proposta de Carta constitucional, que Evo deseja colocar em votação nacional o mais rápido possível, não é aceita pela oposição como proposta legítima, entre muitos outros motivos, por ter sido produzida numa sessão constituinte em que partidários do atual presidente vindos de todo o país cercaram a assembléia, que foi improvisada em Sucre, a capital histórica, e não permitiram que os constituintes saíssem antes que a carta estivesse totalmente terminada. Há duas versões para a ausência da oposição: a de que o fizeram em protesto à falta de cumprimento das formalidades exigidas pela constituição em vigor para a instalação de uma constituinte, e a de que foram impedidos de entrar pela multidão que cercava o local.
Mas o que está de fato em questão são, inegavelmente, dois temas: o caráter federalista do Estado e a reforma agrária. O primeiro tema é mais recente, e deriva do fato que boa parte das reservas de gás natural se encontram no Departamento de Tarija, que em busca da retenção de maior parte dos royalties da exploração desse recurso tornou-se integrante da chamada meia-lua autonomista. Tarija nunca foi um Departamento totalmente identificado com a causa "camba" (auto-denominação dos povos orientas para se distinguirem dos "collas"). Em relação ao segundo tópico, o governo Evo Morales promove a redistribuição de terras há pelo menos dois anos, e o foco são as planícies agriculturáveis da região amazônica, pois os topos das montanhas andinas não são de interesse para esse tipo de política. É fato que seria quase impossível promover uma redistribuição de ativos dentro do país sem a recorrência a algum tipo de desordem social, na medida em que são feridos interesses estabelecidos; por outro lado, aceitar os métodos violentos que a esquerda mais radical sempre defende significa se render à ideologia de que a autocracia do proletariado é a solução de todos os males. Temos que aceitar a revolução como única solução aos gravíssimos problemas enfrentados por um país como a Bolívia? Basta estudar a história do país para se verificar que no último Século não houve sequer um quinquênio em que a estabilidade política superasse as movimentações golpistas e revolucionárias. E o resultado está aí.
Há outras questões envolvidas. O Departamento de Chuquisaca, de população majoritariamente indígena, é o centro da aristocracia do país, pois sediou durante muito tempo a capital (Sucre). Uma espécie de Rio de Janeiro, com seus resquícios aristocráticos (Vera Loyola e cia). Dividido entre o apoio à questão indígena e a defesa de Sucre como capital nacional, acabou de associando à meia-lua autonomista em protesto à falta de interesse de Evo em atender as suas reivindicações. Além da duração do mandato de Evo e da possibilidade de reeleição indefinida, que faria dele uma espécie de Robert Mugabe da América do Sul.
Não restam dúvidas de que a situação de exclusão social existente no país precisa ser resolvida, e que a elite econômica irá usar muito eficientemente o racismo dos cambas para voltá-los contra qualquer tentativa de mudança da estrutura social, política e econômica. Também não se quiestiona o fato de que embaixadores que se metem em assuntos internos, inclusive financiando grupos políticos, devem convidados a se retirar, pois precisamos dar um fim à ingerência praticada pelos EUA sobre os assuntos latino-americanos. Ou seja, a agenda é relevante e deve ser levada adiante, mas há sérias dúvidas quanto aos métodos. Por que não seria possível copiar o modelo brasileiro de assembléia constituinte, de 1988?
