O futuro da crise financeira
A atual crise tem levado os estudiosos a refletir sobre a reordenação das relações geopolíticas mundiais, fenômeno que está em andamento desde o início do Século, quando a China se estabeleceu como potência e a Rússia assumiu novo papel, mas que se acelerou agora devido à crise sistêmica do capitalismo. Uma crise com elementos de 1929 e de 1987, com possibilidade de um desfecho à la Bretton-Woods mas que provavelmente terá consequências mais parecidas com as de 1979.
Por quê?
Em 1979 o aumento da taxa de juros estadunidense para um patamar próximo dos 20% anuais levou à configuração do atual sistema financeiro globalizado, já que forçou um afluxo de dólares em direção aos títulos da dívida estadunidense, portanto em direção a Wall Street. Os grandes conglomerados financeiros tinham sede, até então, no euromercado, onde estavam desde os anos 1960 devido à maior regulação no mercado estadunidense. A explosão dos juros, de responsabilidade do então presidente do FED, Paul Volcker, também fez com que estourasse a crise da dívida dos países subdesenvolvidos, fenômeno que estancou o crédito externo do Brasil por quase toda a década de 1980 e que levou à década perdida e à crise fiscal do Estado nos anos 1990. Além disso, modificou a estrutura dos fluxos comerciais mundiais, pois valorizou o dólar e fez com que os Estados Unidos deixassem de ser exportadores líquidos, causando saída de dólares via déficit comercial atrelada à concomitante entrada via déficit fiscal (compra de títulos do governo por parte dos países superavitários, principalmente o Japão) - os famosos déficits gêmeos. Surgia, assim, um mecanismo por meio do qual a máquina econômica estadunidense pode praticar déficits comerciais com o resto do mundo e ser, ao mesmo tempo, financiada por eles.
A situação atual é muito parecida com a de 1979 nos seguintes termos:
1) autoridades de países desenvolvidos e de países periféricos relevantes discutem a possibilidade e a necessidade de uma moeda supranacional, dando lugar a boatos de um eventual fim da supremacia do dólar. Verificou-se nos anos recentes a retomada do crescimento europeu, puxada pela Alemanha (a locomotiva européia) e pela Inglaterra, e principalmente a ascenção da Ásia como região altamente dinâmica e integrada, devido à constituição de uma divisão do trabalho em que Japão e Coréia do Sul produzem bens de alto valor agregado e bens de capital, e China, Taiwan e outros NICs produzem bens de baixo e médio valor agregado; com o que Euro, Yuan e Yen adquiriram importância relativa crescente, com participação cada vez maior nos portfólios de importantes Bancos Centrais e corporações de todo o mundo.

2) No futuro, os juros precisarão subir. Em 1979 subiram em resposta à inflação provocada pelos dois choques do petróleo (chegou a 15% nesse ano), e desta vez subirão em resposta ao endividamento récorde dos países desenvolvidos, que, em algum momento, aumentará o risco de se emprestar dinheiro a eles e poderá pressionar a inflação, a depender de como estará a demanda. As previsões mais otimistas para o déficit estadunidense em 2009 são de 5% do PIB, ou US$ 750 bilhões, mas David Brooks, colunista do New York Times, estima que esse número será muito, muito maior. As razões são: resgates bilionários de empresas em estado de insolvência financeira; novo pacote de estímulo fiscal, à moda Keynesiana, por meio de restituição de imposto de renda; mais estímulo fiscal via investimentos e gastos em seguridade social, particularmente em saúde; cortes de impostos para as pequenas empresas.
É claro que nos próximos dois anos não é possível pensar em aumento de juros, porque o problema será exatamente a baixa liquidez aliada à contração no estado das expectativas, portanto no investimento. Num quadro como esse, a necessidade é de baixar os juros. No entanto, à medida que a crise passar e o déficit ficar, o cenário será outro. O diagnóstico de Alan Greenspan, em entrevista à Folha, também vai nessa linha: o governo deve injetar dinheiro na economia para restituir a confiança no sistema financeiro, e para tanto precisará emitir títulos da dívida. Isso não será problema no curto prazo, mas irá forçar a inflação no médio prazo, e o FED sabe muito bem qual é o remédio para ela. Portanto, no médio prazo haverá aumento de juros.
Conclusão: não há razões para se acreditar que a hegemonia do dólar e dos Estados Unidos está ameaçada. Muito pelo contrário, é possível dizer que haverá uma nova rodada de concentração do poder financeiro nos Estados Unidos, pois os juros precisarão aumentar e isso vai fazer com que o capital se dirija novamente a Nova Iorque, promovendo uma nova rodada de déficits gêmeos.
Até quando isso irá se sustentar é outra conversa...
A menos que as intenções de Merkel, Brown e Sarkozy de liderar a criação de uma nova institucionalidade econômico-financeira mundial se concretizem e consigam impor restrições aos fluxos de capital. Em suma, pouquíssimo provável.
A atual crise tem levado os estudiosos a refletir sobre a reordenação das relações geopolíticas mundiais, fenômeno que está em andamento desde o início do Século, quando a China se estabeleceu como potência e a Rússia assumiu novo papel, mas que se acelerou agora devido à crise sistêmica do capitalismo. Uma crise com elementos de 1929 e de 1987, com possibilidade de um desfecho à la Bretton-Woods mas que provavelmente terá consequências mais parecidas com as de 1979.
Por quê?
Em 1979 o aumento da taxa de juros estadunidense para um patamar próximo dos 20% anuais levou à configuração do atual sistema financeiro globalizado, já que forçou um afluxo de dólares em direção aos títulos da dívida estadunidense, portanto em direção a Wall Street. Os grandes conglomerados financeiros tinham sede, até então, no euromercado, onde estavam desde os anos 1960 devido à maior regulação no mercado estadunidense. A explosão dos juros, de responsabilidade do então presidente do FED, Paul Volcker, também fez com que estourasse a crise da dívida dos países subdesenvolvidos, fenômeno que estancou o crédito externo do Brasil por quase toda a década de 1980 e que levou à década perdida e à crise fiscal do Estado nos anos 1990. Além disso, modificou a estrutura dos fluxos comerciais mundiais, pois valorizou o dólar e fez com que os Estados Unidos deixassem de ser exportadores líquidos, causando saída de dólares via déficit comercial atrelada à concomitante entrada via déficit fiscal (compra de títulos do governo por parte dos países superavitários, principalmente o Japão) - os famosos déficits gêmeos. Surgia, assim, um mecanismo por meio do qual a máquina econômica estadunidense pode praticar déficits comerciais com o resto do mundo e ser, ao mesmo tempo, financiada por eles.
A situação atual é muito parecida com a de 1979 nos seguintes termos:
1) autoridades de países desenvolvidos e de países periféricos relevantes discutem a possibilidade e a necessidade de uma moeda supranacional, dando lugar a boatos de um eventual fim da supremacia do dólar. Verificou-se nos anos recentes a retomada do crescimento europeu, puxada pela Alemanha (a locomotiva européia) e pela Inglaterra, e principalmente a ascenção da Ásia como região altamente dinâmica e integrada, devido à constituição de uma divisão do trabalho em que Japão e Coréia do Sul produzem bens de alto valor agregado e bens de capital, e China, Taiwan e outros NICs produzem bens de baixo e médio valor agregado; com o que Euro, Yuan e Yen adquiriram importância relativa crescente, com participação cada vez maior nos portfólios de importantes Bancos Centrais e corporações de todo o mundo.

2) No futuro, os juros precisarão subir. Em 1979 subiram em resposta à inflação provocada pelos dois choques do petróleo (chegou a 15% nesse ano), e desta vez subirão em resposta ao endividamento récorde dos países desenvolvidos, que, em algum momento, aumentará o risco de se emprestar dinheiro a eles e poderá pressionar a inflação, a depender de como estará a demanda. As previsões mais otimistas para o déficit estadunidense em 2009 são de 5% do PIB, ou US$ 750 bilhões, mas David Brooks, colunista do New York Times, estima que esse número será muito, muito maior. As razões são: resgates bilionários de empresas em estado de insolvência financeira; novo pacote de estímulo fiscal, à moda Keynesiana, por meio de restituição de imposto de renda; mais estímulo fiscal via investimentos e gastos em seguridade social, particularmente em saúde; cortes de impostos para as pequenas empresas.
É claro que nos próximos dois anos não é possível pensar em aumento de juros, porque o problema será exatamente a baixa liquidez aliada à contração no estado das expectativas, portanto no investimento. Num quadro como esse, a necessidade é de baixar os juros. No entanto, à medida que a crise passar e o déficit ficar, o cenário será outro. O diagnóstico de Alan Greenspan, em entrevista à Folha, também vai nessa linha: o governo deve injetar dinheiro na economia para restituir a confiança no sistema financeiro, e para tanto precisará emitir títulos da dívida. Isso não será problema no curto prazo, mas irá forçar a inflação no médio prazo, e o FED sabe muito bem qual é o remédio para ela. Portanto, no médio prazo haverá aumento de juros.
Conclusão: não há razões para se acreditar que a hegemonia do dólar e dos Estados Unidos está ameaçada. Muito pelo contrário, é possível dizer que haverá uma nova rodada de concentração do poder financeiro nos Estados Unidos, pois os juros precisarão aumentar e isso vai fazer com que o capital se dirija novamente a Nova Iorque, promovendo uma nova rodada de déficits gêmeos.
Até quando isso irá se sustentar é outra conversa...
A menos que as intenções de Merkel, Brown e Sarkozy de liderar a criação de uma nova institucionalidade econômico-financeira mundial se concretizem e consigam impor restrições aos fluxos de capital. Em suma, pouquíssimo provável.
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