quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O subprime não resultou de burrice financeira

Um importantíssimo detalhe sobre a crise não está explícito no debate. Talvez por ser incômodo e exigir reflexão séria e destituída do polarismo "deus mercado versus deus Estado".

A criação da agência Fannie Mae nos EUA data de 1938, quando o governo Roosevelt (New Deal) tinha o objetivo de injetar liquidez na economia, devido às consequências da crise de 1929. Em 1968 ela foi quase totalmente privatizada, devido aos elevados prejuízos que vinha causando, e em 1970 foi criada a Freddie Mac, com a intenção de gerar competição num mercado praticamente monopolizado pela Fannie Mae. Até os dias de hoje muito se passou em termos de atuação dessas empresas. O que mais se destaca, no entanto, é a movimentação dos democratas, no governo Jimmy Carter (1977), para aprovar no Senado o chamado Community Reinvestment Act (CRA), um conjunto de regras que visava a produzir igualdade de acesso ao crédito e não discriminação de comunidades marginalizadas no processo de concessão de crédito. Com vistas a enfrentar o problema dos guetos que se tornou notório nas décadas de 1960 e 1970, essa legislação dificultaria a aprovação de fusões, aquisições e outras operações de grande escala por parte de instituições financeiras que não beneficiassem correntistas de baixa renda com empréstimos para a aquisição de casas. É difícil dizer o quanto a sequência de regulações que se seguiram a esse primeiro passo forçaram os bancos a assumir riscos desnecessários, mas é muito provável que essa seja uma das raízes da generalização do subprime.

Falando em 2007, Bernanke disse que a incerteza ligada às operações de crédito concedidas a indivíduos de cada vez mais baixa renda "may have created a 'first-mover' problem, in which each financial institution has an incentive to let one of its competitors be the first to enter an underserved market." Para ele, pelo menos em alguns casos "the CRA has served as a catalyst, inducing banks to enter underserved markets that they might otherwise have ignored" (discurso disponível aqui).

Em 1989, no contexto de crise financeira, foi aprovado uma nova legislação que previa a divulgação pública, por parte das agências governamentais, de ratings referentes ao grau de cumprimento do CRA por parte dos bancos. Isso fez com que os movimentos sociais pudessem acompanhar de perto a atuação dos bancos e fazer pressão por modificações em suas políticas de concessão de crédito.

Em 1992, uma nova legislação obrigou Fanni Mae e Freddie Mac a direcionar um determinando percentual de sua carteira de crédito a empréstimos ligados à aquisição de casas por famílias de baixa renda. Em 2001, a Fannie Mae anunciou que, até 2010, pretendia vincular 500 bilhões de dólares a esse tipo de empréstimo, o que representaria um terço do total de suas operações.

Já em 1995 previa-se que a excessiva regulacão do mercado bancário iria diminuir a rentabilidade do setor. No entanto, a força dos democratas e das organizações sociais não permitiu que se evitasse passar uma nova legislação, desta vez tornando os ratings ligados ao cumprimento do CRA ainda mais públicos, via web, e incluindo o financiamento de determinadas obras comunitárias ligadas ao meio ambiente no CRA. É óbvio que se as decisões de investimento de uma empresa são cada vez mais determinadas pelo Estado, fazendo com que a sua rentabilidade diminua, ela terá um maior incentivo para obter lucros financeiros com operações de securitização. De fato, em 1997 o First Union Capital Markets and Bear, Stearns & Co lançou a primeira operação de securitização de empréstimos ligados ao CRA, no valor de US$ 384 milhões.

Os republicanos tentaram, em 1999, diminuir esse quadro de excessiva regulação, propondo a retirada de alguns bancos do escopo do CRA. Mas não tiveram sucesso. E mesmo que tivessem tido, Bill Clinton já havia adiantado que teria vetado qualquer tentativa de desobrigar os bancos a realizarem empréstimos cada vez mais arriscados. De qualquer maneira, fez-se um acordo entre democratas e republicanos para que os bancos não tivessem o direito de se expandir para o setor de seguros e de securitizar os seus ativos, a menos que cumprissem as regras do CRA! Ou seja, as crescentes distorções introduzidas no mercado para que bancos desconsiderassem riscos gerou um processo político no Senado que culminou com a seguinte estratégia: façam empréstimos cada vez mais arriscados e securitizem para espalhar o risco. Congratulations!

Em 1946, o filme "It's a wonderful life", de Frank Capra, mostrava a saga de um empresário-herói que oferecia empréstimos a pessoas que não podiam pagá-los. Para os big lizards, nasceu nessa obra o imaginário de que, contra qualquer racionalidade capitalista, seria possível que banqueiros bonzinhos subsidiassem a compra de casas por pessoas pobres. Algumas décadas mais tarde surgiria o fenômeno do subprime, e o conto de fadas mais uma vez omitiria a racionalidade capitalista e passaria a imagem de que os banqueiros, por alguma estranha burrice, teriam emprestado a quem não pode pagar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A situação da Bolívia


Nueva Constitución Política del Estado, Evo Morales e outros temas


Para os que se interessarem, é possível baixar a "nueva constitución política del Estado" da Bolívia, aprovada em dezembro de 2007 por uma assembléia constituinte em que não estavam presentes os membros dos partidos da oposição a Evo Morales.

A Carta contém reflexões dignas de atenção num país onde o segregacionismo racial é muito forte e existe um quase apartheid, particularmente nas grandes cidades orientais (Santa Cruz de La Sierra é a maior delas), sendo as vítimas os próprios povos nativos do ocidente do país, pejorativamente chamados de "collas" pelos povos do ocidente, principalmente dos Departamentos - divisão política correspondente ao estado no Brasil - de Santa Cruz, Beni e Pando. Por exemplo, se propõe que as 36 línguas faladas no país sejam reconhecidas como línguas oficiais e que cada Departamento deva adotar duas delas para as formalidades governamentais, sendo que uma deve ser o castelhano, obrigatoriamente. Além disso, a Bolivia seria um Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário, livre, independente, soberano, democrático, intercultural, descentralizado e com autonomias. O que significa que a cada uma das nações indígenas originárias é garantido o direito da autonomia, autogestão e consolidação de suas próprias instituições. Sendo que "es nación y pueblo indígena originario campesino toda la colectividad humana que comparta identidad cultural, idioma, tradición histórica, instituciones, territorialidad y cosmovisión, cuya existencia es anterior a la invasión colonial española." Em suma, é uma tentativa de experiência inovadora de consolidação de nação multicultural depois de séculos de dominação política e cultural e de discriminação dos povos indígenas.

A experiência do Equador parece ir na mesma linha da Bolívia, e também é digna de análise e de comparação, principalmente pela institucionalização do caráter multicultural do país. É uma reforma que deverá ser acompanhada atentamente nos próximos anos, pois o seu sucesso pode signifcar um marco na organização de sociedades pós-coloniais marcadas pela fragmentação, como é também o caso de muitos dos países africanos.

Outros aspectos interessantes da proposta de nova constituição são a proibição à instalação de bases militares estrangeiras, o direito ao voto para os bolivianos residentes no exterior e a garantia da propriedade privada, apesar de o Estado se reservar o direito da expropriação quando avaliar necessário e benéfico ao interesse público, conforme justa indenização (ou seja, na prática, não haveria propriedade privada!). Além, é claro, da manutenção do caráter federalista do Estado, em que a receita tributária é centralizada e distribuída de acordo com critérios de justiça em com vistas a atenuar as desigualdades regionais. Países europeus souberam lidar com ameaças à manutenção do federalismo, como a Itália e a Alemanha, que concederam autonomia fiscal a alguns de seus estados. Esse é o caminho que a Bolívia provavelmente seguirá.

A proposta de Carta constitucional, que Evo deseja colocar em votação nacional o mais rápido possível, não é aceita pela oposição como proposta legítima, entre muitos outros motivos, por ter sido produzida numa sessão constituinte em que partidários do atual presidente vindos de todo o país cercaram a assembléia, que foi improvisada em Sucre, a capital histórica, e não permitiram que os constituintes saíssem antes que a carta estivesse totalmente terminada. Há duas versões para a ausência da oposição: a de que o fizeram em protesto à falta de cumprimento das formalidades exigidas pela constituição em vigor para a instalação de uma constituinte, e a de que foram impedidos de entrar pela multidão que cercava o local.

Mas o que está de fato em questão são, inegavelmente, dois temas: o caráter federalista do Estado e a reforma agrária. O primeiro tema é mais recente, e deriva do fato que boa parte das reservas de gás natural se encontram no Departamento de Tarija, que em busca da retenção de maior parte dos royalties da exploração desse recurso tornou-se integrante da chamada meia-lua autonomista. Tarija nunca foi um Departamento totalmente identificado com a causa "camba" (auto-denominação dos povos orientas para se distinguirem dos "collas"). Em relação ao segundo tópico, o governo Evo Morales promove a redistribuição de terras há pelo menos dois anos, e o foco são as planícies agriculturáveis da região amazônica, pois os topos das montanhas andinas não são de interesse para esse tipo de política. É fato que seria quase impossível promover uma redistribuição de ativos dentro do país sem a recorrência a algum tipo de desordem social, na medida em que são feridos interesses estabelecidos; por outro lado, aceitar os métodos violentos que a esquerda mais radical sempre defende significa se render à ideologia de que a autocracia do proletariado é a solução de todos os males. Temos que aceitar a revolução como única solução aos gravíssimos problemas enfrentados por um país como a Bolívia? Basta estudar a história do país para se verificar que no último Século não houve sequer um quinquênio em que a estabilidade política superasse as movimentações golpistas e revolucionárias. E o resultado está aí.

Há outras questões envolvidas. O Departamento de Chuquisaca, de população majoritariamente indígena, é o centro da aristocracia do país, pois sediou durante muito tempo a capital (Sucre). Uma espécie de Rio de Janeiro, com seus resquícios aristocráticos (Vera Loyola e cia). Dividido entre o apoio à questão indígena e a defesa de Sucre como capital nacional, acabou de associando à meia-lua autonomista em protesto à falta de interesse de Evo em atender as suas reivindicações. Além da duração do mandato de Evo e da possibilidade de reeleição indefinida, que faria dele uma espécie de Robert Mugabe da América do Sul.

Não restam dúvidas de que a situação de exclusão social existente no país precisa ser resolvida, e que a elite econômica irá usar muito eficientemente o racismo dos cambas para voltá-los contra qualquer tentativa de mudança da estrutura social, política e econômica. Também não se quiestiona o fato de que embaixadores que se metem em assuntos internos, inclusive financiando grupos políticos, devem convidados a se retirar, pois precisamos dar um fim à ingerência praticada pelos EUA sobre os assuntos latino-americanos. Ou seja, a agenda é relevante e deve ser levada adiante, mas há sérias dúvidas quanto aos métodos. Por que não seria possível copiar o modelo brasileiro de assembléia constituinte, de 1988?

sábado, 18 de outubro de 2008

E a hegemonia do dólar?

O futuro da crise financeira

A atual crise tem levado os estudiosos a refletir sobre a reordenação das relações geopolíticas mundiais, fenômeno que está em andamento desde o início do Século, quando a China se estabeleceu como potência e a Rússia assumiu novo papel, mas que se acelerou agora devido à crise sistêmica do capitalismo. Uma crise com elementos de 1929 e de 1987, com possibilidade de um desfecho à la Bretton-Woods mas que provavelmente terá consequências mais parecidas com as de 1979.

Por quê?


Em 1979 o aumento da taxa de juros estadunidense para um patamar próximo dos 20% anuais levou à configuração do atual sistema financeiro globalizado, já que forçou um afluxo de dólares em direção aos títulos da dívida estadunidense, portanto em direção a Wall Street. Os grandes conglomerados financeiros tinham sede, até então, no euromercado, onde estavam desde os anos 1960 devido à maior regulação no mercado estadunidense. A explosão dos juros, de responsabilidade do então presidente do FED, Paul Volcker, também fez com que estourasse a crise da dívida dos países subdesenvolvidos, fenômeno que estancou o crédito externo do Bra
sil por quase toda a década de 1980 e que levou à década perdida e à crise fiscal do Estado nos anos 1990. Além disso, modificou a estrutura dos fluxos comerciais mundiais, pois valorizou o dólar e fez com que os Estados Unidos deixassem de ser exportadores líquidos, causando saída de dólares via déficit comercial atrelada à concomitante entrada via déficit fiscal (compra de títulos do governo por parte dos países superavitários, principalmente o Japão) - os famosos déficits gêmeos. Surgia, assim, um mecanismo por meio do qual a máquina econômica estadunidense pode praticar déficits comerciais com o resto do mundo e ser, ao mesmo tempo, financiada por eles.

A situação atual é muito parecida com a de 1979 nos seguintes termos:


1) autoridades de países desenvolvid
os e de países periféricos relevantes discutem a possibilidade e a necessidade de uma moeda supranacional, dando lugar a boatos de um eventual fim da supremacia do dólar. Verificou-se nos anos recentes a retomada do crescimento europeu, puxada pela Alemanha (a locomotiva européia) e pela Inglaterra, e principalmente a ascenção da Ásia como região altamente dinâmica e integrada, devido à constituição de uma divisão do trabalho em que Japão e Coréia do Sul produzem bens de alto valor agregado e bens de capital, e China, Taiwan e outros NICs produzem bens de baixo e médio valor agregado; com o que Euro, Yuan e Yen adquiriram importância relativa crescente, com participação cada vez maior nos portfólios de importantes Bancos Centrais e corporações de todo o mundo.


2) No futuro, os juros precisarão subir. Em 1979 subiram em resposta à inflação provocada pelos dois choques do petróleo (chegou a 15% nesse ano), e desta vez subirão em resposta ao endividamento récorde dos países desenvolvidos, que, em algum momento, aumentará o risco de se emprestar dinheiro a eles e poderá pressionar a inflação, a depender de como estará a demanda. As previsões mais otimistas para o déficit estadunidense em 2009 são de 5% do PIB, ou US$ 750 bilhões, mas David Brooks, colunista do New York Times, estima que esse número será muito, muito maior. As razões são: resgates bilionários de empresas em estado de insolvência financeira; novo pacote de estímulo fiscal, à moda Keynesiana, por meio de restituição de imposto de renda; mais estímulo fiscal via investimentos e gastos em seguridade social, particularmente em saúde; cortes de impostos para as pequenas empresas.
É claro que nos próximos dois anos não é possível pensar em aumento de juros, porque o problema será exatamente a baixa liquidez aliada à contração no estado das expectativas, portanto no investimento. Num quadro como esse, a necessidade é de baixar os juros. No entanto, à medida que a crise passar e o déficit ficar, o cenário será outro. O diagnóstico de Alan Greenspan, em entrevista à Folha, também vai nessa linha: o governo deve injetar dinheiro na economia para restituir a confiança no sistema financeiro, e para tanto precisará emitir títulos da dívida. Isso não será problema no curto prazo, mas irá forçar a inflação no médio prazo, e o FED sabe muito bem qual é o remédio para ela. Portanto, no médio prazo haverá aumento de juros.

Conclusão: não há razões para se acreditar que a hegemonia do dólar e dos Estados Unidos está ameaçada. Muito pelo contrário, é possível dizer que haverá uma nova rodada de concentração do poder financeiro nos Estados Unidos, pois os juros precisarão aumentar e isso vai fazer com que o capital se dirija novamente a Nova Iorque, promovendo uma nova rodada de déficits gêmeos.

Até quando isso irá se sustentar é outra conversa...

A menos que as intenções de Merkel, Brown e Sarkozy de liderar a criação de uma nova institucionalidade econômico-financeira mundial se concretizem e consigam impor restrições aos fluxos de capital. Em suma, pouquíssimo provável.

sábado, 16 de agosto de 2008

Debate sobre prova da ANPEC

Há alguns meses um grupo de alunos da UFRJ lançou na internet (http://debateanpec.blogspot.com/2008/04/abaixo-assinado_09.html) um abaixo-assinado e um debate sobre uma proposta de reformulação da prova da ANPEC. Redigi um comentário com a minha opinião, mas aparemente fui censurado!

Abaixo o conteúdo do meu post.

Muito interessante esta reunião de economistas para discutir o exame da ANPEC. Fora os radicalismos, característicos de quem não tem ponderação suficiente para analisar friamente os lados de um debate, há muito o que se aprender neste conjunto de posts.

Em primeiro lugar, o problema enfrentado pela prova da ANPEC é o mesmo que enfrenta qualquer vestibular: capacidade de processamento. O ideal seria que as questões fossem dissertativas, de modo a avaliar a capacidade de redação, de síntese, de absorção do conteúdo e de ligação entre as diversas áreas do estudo econômico. No entanto, isso é inviável (apesar de que os 255 mil que arrecada a ANPEC - segundo cálculos do Lucas - deveriam ser suficientes até para isso). Resta, então, a opção de fazer um monte de testes e utilizar um gabarito que entra no computador e sai com a nota depois de um segundo. E, para os centros que tiverem interesse, aplicar uma redação cuja correção fica a cargo do próprio centro e de suas idiossincrasias.

Pois bem, não adianta nada mudarmos o exame da ANPEC, retirando formalismos ou adicionando subjetivismos, se as escolas associadas não tiverem interesse em modificar as ponderações de cada prova. De que adiantaria adicionar uma prova de HPE se, de qq maneira, a maioria das escolas lhe daria ponderação zero? O que pode ser mudado são as ponderações dadas por cada centro para as provas já existentes. E nesse sentido me parece um absurdo que a redação não seja considerada pela maioria das escolas.

As motivações que estão por trás da opção de cada centro por uma determinada ponderação não dependem da estrutura da prova da ANPEC, mas o contrário é verdadeiro. Se a maior parte das escolas demandar maior conteúdo de HPE, isso certamente será incluído na ANPEC.

Cada escola tem uma determinada estrutura curricular e uma determinada qualidade, e os alunos fazem a opção de acordo com isso, não de acordo com a prova da ANPEC. Se eu quero estudar na UNICAMP porque acho que a estrutura / qualidade da instituição condizem com o que estou procurando, vou me preparar de acordo com a ponderação daquela prova. Se, pelo contrário, faço a opção pela PUC / RJ, estudarei de acordo com a ponderação exigida por essa escola. E, no fim, a ponderação tem tudo a ver com a estrutura curricular da escola.

Em suma, não vejo problemas com a prova da ANPEC. Quem quer estudar na USP precisa estar preparado com determinado ferramental teórico, e isso é exigido na prova da ANPEC. Quem vai fazer UFRJ deverá trazer consigo um ferramental bastante diferente, e isso é o que está sendo exigido na prova. Agora, se os alunos da UFRJ não estão de acordo com a ponderação, e acham que não condiz com o que seria necessário para estudar nessa escola, então devem protestar internamente.

Em relação aos itens 2 e 3, não há muito o que comentar. Realmente, o preço da inscrição é assustador e existe um claro padrão de transferência de renda, como bem observou um colega num dos posts acima. Isso precisa mudar, e me parece que um abaixo assinado é a primeira ferramente para tanto. O mesmo se aplica ao assunto da cola, apesar de que, principalmente num país como o nosso, numca estaremos livres de picaretagens das mais criativas!

Concluindo, concordo com o Theo e com outros em que deveríamos dividir esta manifestação em duas partes, de modo a otimizar os resultados.

Finalmente, não posso deixar de participar do bate-boca. Recemente o professor Marco Valente, economista italiano, disse o seguinte: os economistas tendem a defender com unhas e dentes as ferramentas com as quais se identificam, ao invés de entender as características dos diferentes instrumentos disponíveis e aplicar a chave certa ao parafuso em questão. Ou seja, o economista neoclássico pretende entender o mundo inteiro em termos de equilíbrio geral; o econometrista pretende rodar regressões para os mais diversos fenômenos indistintamente; o institucionalista encontrou a panacéia que explica tudo e nada ao mesmo tempo, e assim por diante.

A visão do prof. Marco é a perfeita síntese do debate que estamos tendo por aqui. Aquilo que se chama de economistas heterodoxos, um conjunto extremamente diverso de escolas que, no caso do Brasil, procuram ter uma visão crítica da teoria econômica, da história e da sociedade, é fundamental para a construção de uma Nação com projeto de desenvolvimento de longo prazo. O modelo IS-LM e suas derivações jamais será útil para o entendimento das nuances e da especificidade do desenvolvimento da economia brasileira.

Por outro lado, a instrumentalização e operacionalização da análise econômica é fundamental para a garantia da eficiência do sistema. Como poderia um especialista do BACEN tomar decisões com base em teoria marxista? Certamente não sairia nada de bom! Como poderia um burocrata do Ministério da Fazenda analisar as contas públicas do país sem entender de sistema tributário, de legislação e de finanças? Como poderíamos entender a dinâmica intersetoria da indústria sem análises de insumo-produto? Como faríamos projeções da demanda de energia para os próximos dez anos sem utilizar econometria?

O estudo da economia não pode prescindir de um nem de outro. E cada pesquisador deve se concentrar em determinada problemática (e não em determinada ferramenta). O que não se pode aceitar são (pseudo-) cientistas que se fecham em seu mundinho e acreditam que a ciência não passa daquela escola que escolheram para si, mais ou menos como times de futebol. Na verdade, a ciência é a controvérsia em si, e avança por meio da oposição de idéias e do debate. Um monte de economistas que concordam entre si, além de não representar qualquer ciência, é uma coisa triste até de se imaginar. Ainda bem que isso não existe em nenhuma escola!

Por fim, dizer que os economistas mais influentes do país vêm da UNICAMP é um pouco de exagero! Assim como o FHC colocou a turma da PUC / RJ, o Lula está dando lugar à turma da UNICAMP, e isso não faz com que essa turma seja influente. Ser influente significa ter suas idéias no centro do debate econômico nacional.
Por outro lado, desqualificar os "meninos da PUC" é uma tremenda infantilidade, para dizer pouco.

Nenhuma escola tem 100% de alunos e professores ligados à linha de pesquisa que nela mais se sobressai. A USP é o exemplo clássico, em que há pesquisa de peso nacional tanto em teoria marxista como em economia keynesiana e economina neoclássica. Mas a UNICAMP também tem alunos e professores adeptos à formalização, apesar de serem minoria, bem como suponho que existam na PUC / RJ pesquisadores que destoam da característica principal da escola.

Petterson Molina Vale
Mestrado em desenvolvimento econômico / IE / UNICAMP

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vida de seringueiro: tecido da floresta 2

Eu e dois amigos fizemos uma visita às comunidades que produzem o Tecido da Floresta. Foi um passeio interessantíssimo!
Primeiro fui levado à sede da Coopflora, em Machadinho do Oeste.















Ao entrar, encontrei uma amostra das bolsas que os artesãos produzem com o Tecido da Floresta. E a minha impressão, de leigo em assuntos de moda, é de que as bolsas são muito bem feitas, especialmente se considerarmos que são 100% artesanais. As máquinas que se vêem do lado direito da foto foram recém adquiridas e ainda não estão em uso, mas já são motivo para muito otimismo por parte dos seringueiros, porque agora poderão produzir em escala bem maior.
Dêem uma olhada nos produtos:













Para se ter uma idéia, a matéria-prima tem esta cara:




















A visita começou na RESEX (Reserva Extrativista) Quariquara, uma reserva estadual que pode ser explorada legalmente pelas populações tradicionais (e somente por elas), os seringueiros, e é gerida pela SEDAM (Secretaria estadual do Desenvolvimento Ambiental) e pela ASMOREX (Associação dos Moradores da Reserva Extrativista). Lá conheci a família do Sr. Dorival Bindá e da Sra. Maria das Graças Bindá:

O forasteiro sou eu, o careca é o Godelo, líder do projeto Tecido da Floresta, e os demais a família do Sr. Doriva e da Sra. Maria das Graças.
Eis a vista da casa deles:



Mais adiante fomos à casa do Sr. Tiago:
U Tiag uma veiz foi atacad puma onça. Eis tava im treis cumpanhêru i um deis ficô cum med i trepô logo numa arvi... num tinha crist que descessi u caboc di lá.. a onça vinu pa cima du Tiagu, u cumpanhêru im riba da arvi i u otu passanu a mão num facão pá vê si dava jeit de matá éa. Quand a onça pulô im riba du Tiagu ei garrô nu pescoço déa i tentô sigurá a murdida da bicha.. sigura daqui, sigura dali i sigura di lá i u cumpanhêru du facão chegô pur tráis i mandô vê u facão néa. U Tiagu levô dentada nu naríis, nu peitu i na urêia, mais si safô dais bocada mais ferois.
Dispois nóis ia matá u cabocu qui feiz aquéa cuvardia, mais otus cumpanhêru acalmô nóis i pidiu
qui dexássi u ómi pa lá.. qui u med éra qui tinha guvernadu ei.
A casa do Sr. Tiago é do tipo tradicional:

















As ferramentas de trabalho do Sr. Tiago:

E a carne seca!

No caminho para a casa do Sr. Tiago, o nosso guia veio nos explicando como funciona o trabalho dos seringueiros.




















Cada família de seringueiros recebe uma “colocação” dentro da reserva. É um pedaço da RESEX que pode ser explorado de uma determinada maneira, ditada pela lei. Por exemplo, segundo essa lei um percentual da colocação pode ser desmatado e o resto deve ser utilizado para a extração da seringa. Além disso, as Associações de Moradores podem fazer planos de manejo e extrair madeira das reservas de maneira sustentável, gerando renda a ser repartida dentro da comunidade.
O seringueiro mapeia as árvores de seringa que existem em sua colocação e produz uma “rua”, um caminho que liga a casa dele a todas as seringueiras de sua colocação. Assim, ao transitar pela rua ele encontrará todas as seringueiras de sua propriedade.
A extração do látex se dá através de cortes na planta que são feitos de maneira a que o leite caia dentro de um recipiente (cumbuca).











Na foto com o nosso guia, a cumbuca está virada para baixo.
À medida que o leite cai dentro da cumbuca ele vai se coagulando, até que se transforma no cernambi:
Os cortes são feitos a cada dois ou três dias em todas as árvores, e somente nos meses de agosto e setembro não se cortam as seringueiras, porque é a época do florio e deve-se deixá-las repousarem. Se uma seringueira deixar de ser cortada por um longo período de tempo, haverá um acúmulo de leite provocando o rachamento do tronco, o coprometimento da casca e gradativamente a morte da árvore.
Quando um dos lados da seringueira já está todo cortado, corta-se o outro lado. Quando este também já está completo, a casca que havia sido cortada do lado anterior já se terá regenerado, de modo que se pode retornar àquele lado.
Não se deve cortar antes de uma chuva, porque a cumbuca fica cheia de água e o leite cai na terra. Se a chuva vier algum tempo depois do corte, quando o leite já se solidificou, não há nenhum problema.
Os seringueiros reúnem os cernambis (o látex coagulado nas cumbucas) em um saco encauchado (impermeabilizado com o látex da própria seringueira), e após procederem à prensagem de conjuntos de cernambis que totalizam aproximadamente 30 Kg, vendem as peças prensadas para as indústrias de beneciamento de borracha (a produção de 1 Kg de cernambi demanda entre 3 e 4 litros de látex). Essa venda é intermediada pelas cooperativas de seringueiros, que pagam R$ 2,00 pelo Kg de cernambi. Alguns seringueiros acreditam que o preço que recebem é muito baixo, se for considerado o valor que a cooperativa recebe. Mas eles não têm a informação de qual é este último valor.
A alternativa a esse comércio é a venda para a Coopflora, a cooperativa dos povos da floresta, que produz o Tecido da Floresta, para quem os seringueiros podem vender o leite ou as mantas já prontas. Caso optem pela venda do leite, devem depositar nas cumbucas algumas gotas de amônia para impedir a coagulação do látex. Assim, após algumas horas de escorrimento do leite, o seringueiro retorna ao local e recolhe o leite nos sacos encauchados, armazenando-o em vazilhames e vendendo para a coopflora: o preço atual de um litro é de R$ 2,00. Se optar pela produção da manta, pode vendê-la por um preço que vai de R$ 7,00 a R$ 18,00, dependendo da qualidade, sendo que o consumo de látex é de aproximadamente 1,5 L.
Um seringueiro tem uma renda média mensal de R$ 400,00 se vender o látex diretamente à cooperativa. Mas o Tecido da Floresta pode fazer com que essa renda suba para R$ 1000,00, uma vez que tanto a venda do leite quanto a venda da manta são mais lucrativas do que a venda do cernambi.
As mantas são tradicionalmente utilizadas pelas populações tradicionais para a confecção de sacos impermeáveis bastante simples, como o da foto (chamado pelas populações tradicionais de "saco encauchado") :
Esses sacos não permitem que a tralha se molhe e ao mesmo tempo a fazem flutuar no rio, em caso de acidentes ou quando se estiver atravessando o rio a nado, já que ao ter a boca amarrada ficam cheios de ar.
Também podem ser matéria-prima para a costura de ótimas jaquetas:


A produção do tecido é feita de maneira totalmente artesanal, e utilizando a matéria-prima da floresta. Cada família de seringueiros tem, ao lado de sua casa, uma pequena oficina de produção do tecido.

O primeiro passo é acender o fogo para que se possa derreter o látex. Utilizam-se coquinhos como combustível e uma fornalha artesanal, que tem um enorme buraco logo ao lado para que haja circulação de oxigênio:


Após a colheita dos coquinhos, se acende o fogo com látex e se jogam os coquinhos combustíveis em cima:
















Feito isso, o látex é derretido com o calor e esparramado uniformemente sobre uma tela de algodão, de modo a formar uma manta. As fotos a seguir mostram as telas de algodão, o látex antes de ser derretido e a cumbuca utilizada para esparramá-lo, já no estado líquido, sobre a tela de algodão:





















E o resultado final:



Por enquanto é isso!!!

Agradeço imensamente aos meus amigos Elizeu (que aparece na foto vestindo a jaqueta), chefe da SEDAM de Machadinho do Oeste, e ao Godelo (que aparece segurando a tela de algodão), presidente da Coopflora, por terem me possibilitado esse incrível passeio.
Quem quiser comprar o material produzido por esse pessoal pode entrar em contato comigo!
Abraço

domingo, 29 de junho de 2008

Rondônia, desmatamento, Amazônia

As dificuldades encontradas pelo IBAMA, em janeiro, para articular a operação arco de fogo em Rondônia são apenas um exemplo do desafio que representa a coordenação das ações Federais com os poderes locais da Amazônia. O posicionamento de boa parte dos políticos do Estado de Rondônia é a síntese do pensamento da absoluta maioria da população. Prepondera a visão de que desenvolver é construir estradas, hidrelétricas, alavancar o rebanho bovino e a indústria da madeira.
Ao mesmo tempo, seria difícil que se almejasse menos. A maior parte da população do Estado ainda está sujeita a déficit crônico de energia elétrica e a graves dificuldades de locomoção. Além disso, a nossa cultura essencialmente agrícola e a infra-estrutura da região não nos permitem vislumbrar maneiras muito diferentes de produzir do que agricultura, pecuária e extração de madeira. É essencial a evolução, na sociedade amazônica, da compreensão de que o desenvolvimento não se dará às custas da floresta, mas essa é uma mudança de longo prazo. No curto prazo, pouco será feito sem o apoio das lideranças locais e regionais, por menos receptivas que sejam à idéia de um novo tipo de desenvolvimento.
Existe um crescente setor já comprometido com a mudança do padrão produtivo. São eles (acadêmicos locais, empresários e indivíduos das mais diversas procedências) os principais aliados em potencial das iniciativas que pretendem sucesso, pois têm diálogo aberto com lideranças políticas, empresariado local e sociedade em geral.
Quando essas lideranças, que já têm sinergia com o desafio de um desenvolvimento mais sustentável, são colocadas na mesma categoria que grileiros, madeireiros irresponsáveis, pecuaristas irresponsáveis e todo tipo de agressor do meio ambiente e da sociedade, o que acontece é o fortalecimento destes últimos, que também têm acesso às lideranças locais e regionais. A dificuldade em envolver quem já trabalha por um novo modelo de desenvolvimento é o caminho para o sucesso dos que representam o que há de pior na Amazônia. É como a empresa que decide fazer uma ação social na favela, elabora um lindo plano, mobiliza seus funcionários e se dirige à comunidade para implementar a iniciativa sem nunca tê-la discutido com seu público-alvo. O mais provável é que se fortaleça a idéia de que a empresa não está comprometida com a comunidade, e saiam ganhando aqueles que vivem da sua exploração.
É urgente que as mais diversas iniciativas ligadas à Amazônia primem pela coordenação com o setor comprometido da sociedade local, colhendo a sua opinião e comprometimento. Que congressos que discutem a Amazônia sejam realizados em Porto Velho ou Ji-Paraná; que essas lideranças sejam incluídas na discussão de iniciativas como o Pacto Amazônico; que os planos do governo Federal passem por seu crivo; e, principalmente, que aqueles que trabalham para sensibilizar a maioria sobre a viabilidade de um desenvolvimento mais sustentável tenham sua atuação reconhecida e divulgada.
O sucesso de iniciativas ligadas à promoção de um novo padrão produtivo no território amazônico será, necessariamente, produto da coordenação entre as esferas Federal, Estadual e Municipal, a academia, a sociedade local, o setor privado local e as organizações não-governamentais. Essa não é condição suficiente para que se caminhe na direção correta, mas é necessária para o sucesso de qualquer caminhada. E sabemos que envolve uma complexidade de interesses políticos e econômicos, razão pela qual é a parte mais difícil do quebra-cabeças.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Tecido da Floresta!

Há alguns dias participei de uma reunião da ASMOREX (associação dos moradores da reserva extrativista) Rio Preto - Jacundá, e conheci uma iniciativa que me deixa muito orgulhoso e esperançoso em relação ao desenvolvimento do meu município (Machadinho do Oeste) e da Amazônia como um todo. É o "Tecido da Floresta". Uma maneira criativa de utilizar o conhecimento tradicional dos seringueiros amazônicos para gerar renda para a comunidade sem agredir o meio ambiente.

O texto a seguir é o resumo de algumas reportagens que encontrei sobre o assunto (que estão citadas no rodapé).

Os soldados da borracha, como eram chamados os trabalhadores que extraíam o látex da seringueira na Amazônia, estão se transformando em costureiros em Rondônia. Eles estão produzindo bolsas e acessórios com o Tecido da Floresta, um produto derivado da borracha nativa (látex), totalmente natural. A borracha é até hoje a principal fonte de renda para os habitantes tradicionais da floresta amazônica brasileira. Mas com a queda do seu preço, cada vez mais seringueiros estão fugindo da região ou migrando para atividades como a pecuária e a extração da madeira.

O desenvolvimento de produtos derivados do uso sustentável da floresta é uma das alternativas que a Coopflora, cooperativa que reúne seringueiros na região dos municípios de Machadinho do Oeste e Vale do Anari, em Rondônia, encontrou para ajudar na geração de emprego e renda às famílias locais. A principal dificuldade, segundo o presidente da Coopflora, Erni Santos Lima, é a resistência de alguns seringueiros em trabalharem associados. "Seringueiro não tem profissão reconhecida, não é o dono da terra e, por isso, está acostumado a vender a borracha aos donos, trabalhando como empregado. O que nós fazemos é um trabalho de conscientização no próprio habitat do seringueiro", declarou.

Terezinha de Paula mora em Vale do Anari, onde trabalhava como seringueira. Há dois anos ela iniciou a cooperativa junto com Erni, seu marido e também seringueiro, e hoje já se vêem os frutos em termos de geração de emprego e renda para as famílias locais.

A história da extração de látex inspirou a artesã a idealizar uma linha de produção de bolsas feitas com o Tecido da Floresta. Os soldados da borracha usavam sacos defumados,bolsas improvisadas feitas com o material extraído da árvore, para carregar seus pertences pelo meio da floresta e ao atravessar rios (os sacos são totalmente impermeáveis). Esse conhecimento tradicional do seringueiro é que formou a base criativa para o desenvolvimento do Tecido da Floresta.

Transformar seringueiros em costureiros e designers não foi tarefa fácil. Terezinha e o marido foram buscar ajuda para implantar a idéia e assim surgiram parcerias com a Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR), Governo Estadual, Ministério do Meio Ambiente e Sebrae local. A criação é coletiva e os ex–seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. Em sua primeira visita a São Paulo, a convite da ONG WWF, Terezinha saiu em busca de oportunidades de negócios para sua novíssima linha de produção. Já conseguiu contato com uma importante marca que desfila no SPFW, que vai analisar as mantas, como são chamadas as peças do Tecido da Floresta, para utilizar em roupas e acessórios.

As peças já são vendidas em vários estados brasileiros - São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná -, e devem chegar ao mercado externo neste ano. "Alguns de nossos clientes já mandaram amostras para a Europa. Esperamos fechar a primeira exportação já no começo do ano", conta Erni.

O projeto existe há três anos e está inserido na metodologia da Gestão Estratégica Orientada para Resultados (Geor) do Sebrae. Segundo o coordenador do projeto, Lucimar Antonio Gonçalves, a cooperativa possui atualmente 47 associados, entre costureiros e seringueiros. O Sebrae vem desenvolvendo consultorias em gestão e tecnologia de produção para a cooperativa, que atua em oito reservas extrativistas. Para desenvolver o tecido, o Sebrae trouxe químicos para ajudar a suavizar o cheiro forte da borracha. Também foi feita uma pesquisa de aceitação de mercado, estruturação de um galpão e aquisição de máquinas de costura. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as bolsas. "A transformação que está ocorrendo na vida desses seringueiros é muito grande. Alguns conseguiram aumentar sua renda em 100%. Em média, eles ganham R$ 500 por mês com as bolsas", diz Lima.

O processo começa com a coleta do látex da seringueira nativa. Após receber um tratamento, esse látex é aplicado em cima de uma base de tecido preparado e estendido em um bastidor. Em seguida, é vulcanizado por meio de defumação. A manta que surge fica exposta ao sol para "curar" por quarenta dias. Só então é classificada e transformada em bolsas e acessórios. A criação é coletiva e os ex-seringueiros, agora artesãos, usam linhas coloridas e sementes amazônicas para ornamentar as peças. A capacitação dos seringueiros é feita pelos próprios integrantes do grupo. "Quando um descobre uma nova técnica repassa aos outros. É feita de forma solidária, ou seja, a cada novo seringueiro que entra para o projeto, um associado vai até a sua colocação (lugar onde o seringueiro mora e trabalha) e fica uma semana transmitindo os conhecimentos", conta o presidente.

Uma parceria entre a cooperativa e o Banco do Brasil irá possibilitar a montagem de uma oficina de produção das bolsas na própria cooperativa. Hoje as bolsas são terceirizadas. "A manta vai para a cooperativa e segue para costureiras terceirizadas. Queremos fazer a costura na própria cooperativa - afirma Gonçalves.

O Tecido da Floresta está ganhando mercado no país. A Coopflora está participando de feiras a convite do Sebrae, como a última edição da Biofach América Latina, a maior feira de orgânicos do Brasil, realizada em São Paulo. As bolsas também foram entregues como presente para a Presidência da República. Agora, a cooperativa procura empresas que queiram desenvolver produtos com o tecido. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail coopflora@gmail.com


Fontes:

Moda Pra Ler - http://modapraler.blogspot.com/2006/04/moda-feita-da-floresta.html
Ambiente em foco - http://www.ambienteemfoco.com.br/?p=6465
Agência de Notícias Brasil-Árabe - http://www.anba.com.br/pequena.php?id=143

Mais uma vez estou chocado por ter conhecido esta iniciativa somente agora. Se você fica impressionado ao ver um estudante universitário do Vale do Silício construindo idéias e produtos que se alinham perfeitamente com as necessidades tecnológicas da sociedade contemporânea, imagine um grupo de seringueiros de Rondônia que consegue dar andamento a um negócio que concilia perfeitamente as premissas ambientais, sociais, econômicas e culturais que caracterizam o desenvolvimento sustentável. E que transforma essa idéia em notícia pelos quatro cantos do país. É dessas pessoas que estou falando.

Tenho convicção de que empreendimentos como o Tecido da Floresta representam a saída para o desenvolvimento sustentável não apenas na Amazônia, mas em todo o Brasil. É preciso que essas atividades ganhem escala e tomem, um dia, o lugar da pecuária, da extração da madeira e da plantação de soja. Então, vamos fazer o trivial, divulgar!

Agradeço aos meus amigos Elizeu, da sucursal machadinhense da Secretaria estadual de Desenvolvimento Ambiental, e Godelo, porta-voz e apaixonado pela causa do Tecido da Floresta. Juntos vamos fazer uma visita de campo a esse empreendimento e trazer mais fotos e informações!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Um passeio pela Amazônia

Pessoal, abaixo estão as fotos de meu mais recente passeio pela maravilhosa selva que fica ao lado de minha casa, em Machadinho do Oeste, Rondônia. Possivelmente vai ser difícil acreditar que eu morei aqui durante 13 anos e só agora fui conhecer essa parte do meu município, mas é verdade. As pessoas que vieram do Centro-Sul do país nas décadas de 70 e 80 atraídas pelos benefícios oferecidos pelo governo militar não trouxeram a vontade de conhecer a floresta e aprender a viver nela, mas sim o desejo de aqui reproduzir o modelo de desenvolvimento que haviam aprendido com seus pais e que havia sido transmitido por gerações, que é um modelo baseado em agricultura e criação extensiva de rebanhos animais. Mas que definitivamente não tem nada a ver com a peculiaridade deste paraíso verde.
Nesta redescoberta de minha própria casa senti repentinamente que agora posso dizer que vivo na Amazônia. E é isso que está retratado nas fotos abaixo.
Os olhos desse pequeno ribeirinho retratam a curiosidade que me guiou e me trouxe grandes descobertas no último dia 04 de janeiro.

Abaixo uma embarcação européia que foi abandonada (provavelmente há muito tempo) nas proximidades do Porto II de novembro, na margem esquerda do rio Machado, um afluente do rio Madeira que corta o estado de Rondônia.














A equipe de exploradores:


E o capitão da embarcação:

Antes de irmos para fotos que se esforçam bastante para reproduzir um pedacinho da exuberância daquela selva, um momento de reflexão.

A seguir a visita que fizemos a uma família de ribeirinhos que vive em um dos lugares mais explêndidos jamais vistos. A primeira foto dá uma mínima idéia do visual da casa deles, que fica protegida por um igarapé que atravessamos em uma pequena canoa, sob o comando do nosso experiente amigo "tenente".

















E aqui foi onde encontramos o nosso projetinho de índio, que aparece na foto junto com suas irmãs.






Seguindo viagem rio abaixo chegamos na comunidade Monte Sinai, um lugar paradisíaco. A foto que tem as panelas no fundo mostra a casa do Sr. Evelásio e da Sra. Diva, pessoas maravilhosas que fundaram uma organizada e próspera vila de pescadores no meio da floresta. A casa da dona Diva é uma imensa palafita que guarda iguarias como o bolo de fubá mais gostoso jamais provado. Eu pagaria muito caro para passar alguns dias hospedado na casa daquela maravilhosa família.



















Não acredito que um lugar possa ser mais saudável para crianças do que a comunidade Monte Sinai. As fotos não me deixam mentir.

























A última parada da margem esquerda do Machado (também conhecido como Machadão para diferenciá-lo do Machadinho, um de seus afluentes que deu nome à minha cidade) foi na casa do Jão escuro, filho de um soldado da borracha e pai de uma grande e bonita família.








































E a foto mais bonita de todo o passeio!



Espero que tenham gostado e venham conhecer estas maravilhas. Está todo mundo convidado!
Um abraço.