A criação da agência Fannie Mae nos EUA data de 1938, quando o governo Roosevelt (New Deal) tinha o objetivo de injetar liquidez na economia, devido às consequências da crise de 1929. Em 1968 ela foi quase totalmente privatizada, devido aos elevados prejuízos que vinha causando, e em 1970 foi criada a Freddie Mac, com a intenção de gerar competição num mercado praticamente monopolizado pela Fannie Mae. Até os dias de hoje muito se passou em termos de atuação dessas empresas. O que mais se destaca, no entanto, é a movimentação dos democratas, no governo Jimmy Carter (1977), para aprovar no Senado o chamado Community Reinvestment Act (CRA), um conjunto de regras que visava a produzir igualdade de acesso ao crédito e não discriminação de comunidades marginalizadas no processo de concessão de crédito. Com vistas a enfrentar o problema dos guetos que se tornou notório nas décadas de 1960 e 1970, essa legislação dificultaria a aprovação de fusões, aquisições e outras operações de grande escala por parte de instituições financeiras que não beneficiassem correntistas de baixa renda com empréstimos para a aquisição de casas. É difícil dizer o quanto a sequência de regulações que se seguiram a esse primeiro passo forçaram os bancos a assumir riscos desnecessários, mas é muito provável que essa seja uma das raízes da generalização do subprime.
Falando em 2007, Bernanke disse que a incerteza ligada às operações de crédito concedidas a indivíduos de cada vez mais baixa renda "may have created a 'first-mover' problem, in which each financial institution has an incentive to let one of its competitors be the first to enter an underserved market." Para ele, pelo menos em alguns casos "the CRA has served as a catalyst, inducing banks to enter underserved markets that they might otherwise have ignored" (discurso disponível aqui).
Em 1989, no contexto de crise financeira, foi aprovado uma nova legislação que previa a divulgação pública, por parte das agências governamentais, de ratings referentes ao grau de cumprimento do CRA por parte dos bancos. Isso fez com que os movimentos sociais pudessem acompanhar de perto a atuação dos bancos e fazer pressão por modificações em suas políticas de concessão de crédito.
Em 1992, uma nova legislação obrigou Fanni Mae e Freddie Mac a direcionar um determinando percentual de sua carteira de crédito a empréstimos ligados à aquisição de casas por famílias de baixa renda. Em 2001, a Fannie Mae anunciou que, até 2010, pretendia vincular 500 bilhões de dólares a esse tipo de empréstimo, o que representaria um terço do total de suas operações.
Já em 1995 previa-se que a excessiva regulacão do mercado bancário iria diminuir a rentabilidade do setor. No entanto, a força dos democratas e das organizações sociais não permitiu que se evitasse passar uma nova legislação, desta vez tornando os ratings ligados ao cumprimento do CRA ainda mais públicos, via web, e incluindo o financiamento de determinadas obras comunitárias ligadas ao meio ambiente no CRA. É óbvio que se as decisões de investimento de uma empresa são cada vez mais determinadas pelo Estado, fazendo com que a sua rentabilidade diminua, ela terá um maior incentivo para obter lucros financeiros com operações de securitização. De fato, em 1997 o First Union Capital Markets and Bear, Stearns & Co lançou a primeira operação de securitização de empréstimos ligados ao CRA, no valor de US$ 384 milhões.
Os republicanos tentaram, em 1999, diminuir esse quadro de excessiva regulação, propondo a retirada de alguns bancos do escopo do CRA. Mas não tiveram sucesso. E mesmo que tivessem tido, Bill Clinton já havia adiantado que teria vetado qualquer tentativa de desobrigar os bancos a realizarem empréstimos cada vez mais arriscados. De qualquer maneira, fez-se um acordo entre democratas e republicanos para que os bancos não tivessem o direito de se expandir para o setor de seguros e de securitizar os seus ativos, a menos que cumprissem as regras do CRA! Ou seja, as crescentes distorções introduzidas no mercado para que bancos desconsiderassem riscos gerou um processo político no Senado que culminou com a seguinte estratégia: façam empréstimos cada vez mais arriscados e securitizem para espalhar o risco. Congratulations!
Em 1946, o filme "It's a wonderful life", de Frank Capra, mostrava a saga de um empresário-herói que oferecia empréstimos a pessoas que não podiam pagá-los. Para os big lizards, nasceu nessa obra o imaginário de que, contra qualquer racionalidade capitalista, seria possível que banqueiros bonzinhos subsidiassem a compra de casas por pessoas pobres. Algumas décadas mais tarde surgiria o fenômeno do subprime, e o conto de fadas mais uma vez omitiria a racionalidade capitalista e passaria a imagem de que os banqueiros, por alguma estranha burrice, teriam emprestado a quem não pode pagar.








