Um segmento cada vez mais importante da sociedade vê nos partidos políticos o atraso, e acredita que a nova democracia deverá ser pautada por movimentos difusos, menos burocráticos, como o que dizem estar por trás do Marinismo.
Do lado dos que defendem essa idéia, cito José Eli da Veiga, que tem argumentos muito razoáveis, porém dos quais discordo. Do lado dos que são contrários, Reinaldo Azevedo, com cujos argumentos tendo a me alinhar.
O movimento difuso que mais me intriga é o "Avaaz, o Mundo em Ação". Um grupo de jovens bem intencionados escolhe temas políticos relevantes e polêmicos em diversas partes do mundo - por exemplo, a repressão aos ativistas sírios -, debate-os internamente, chega a uma conclusão que considera correta, e incita internautas de todos os países a fazerem pressão para que a tal posição "correta" seja adotada. No caso da Síria, eles querem que todos nós pressionemos a União Européia para que imponha sanções ao país, deixando de comprar o seu petróleo.
Não preciso entrar em detalhes para convencer o leitor de que a posição dos jovens do Avaaz em relação às sanções é extremamente debatível. Se a UE deixar de comprar, não haverá outros compradores? Caso não haja, só o regime sofrerá, ou também a população? Se for apenas o regime, existe uma alternative política melhor para o povo sírio?
Eu tenho, aqui na Inglaterra, um amigo sírio / italiano que considera as sanções bastante questionáveis.
Neste ponto chegamos ao problema central dos movimentos do tipo "difusos". Eles se apóiam majoritariamente na internet, que por essência é dinâmica e transversal. Conquistam, com isso, duas proezas que só o mundo moderno oferece: engajar pessoas que antes não teriam se engajado, pois tendem a ficar sentadas em casa vendo televisão - e agora acessando a internet -, e fazer com que essas pessoas dêem respostas rápidas, já que estão a um clique de distância, e efetivas, pois um "arrastão de twitter" pode derrubar políticos da noite para o dia.
O que não é intrínseco à internet é a capacidade crítica e argumentativa. Esta habilidade fundamental para o processo político não é potencializada nos movimentos difusos, o que faz com que as pessoas sejam levadas a opiniar sobre uma proposição, a se engajarem politicamente, sem antes fazerem a necessária reflexão, e sem terem a capacidade de convencerem outros sobre as suas próprias posições.
Ao darem transversalidade e dinamismo à política, sem adicionarem capacidade crítica, os movimentos difusos facilitam a captura das massas por idéias de todos os tipos.
É por isso que hoje, no contexto da internet, os partidos são mais necessários do que nunca. Porque eles nada mais são do que loci de debate, disputa, argumentação. Eles sim instigam a capacidade crítica. Eles sim confrontam as opiniões e produzem uma síntese que representa a mediana das posições e dos interesses daqueles que ali estiveram presentes.
Já argumentei em outro post que o Marinismo não tem a chave do futuro como pensa ter. Ele é, paradoxalmente, o caminho para o atraso, travestido de modernidade. O Marinismo, com sua presuntiva base difusa e eletrônica, estimula a captura dos mais vulneráveis - os despolitizados - por ideais que não representam a mediana dos interesses dos brasileiros, mas a síntese dos interesses das lideranças marinistas.

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