quarta-feira, 18 de maio de 2011

Só desgraça na Amazônia? Post longo

Há quase dois meses escrevi um comentário crítico à "rede Amigos da Amazônia", da FGV. Recebi resposta de Malú Villela, que publico aqui junto com a minha mensagem original e com a minha tréplica enviada hoje. O debate é sobre a visão depressiva, pessimista, viesada que se constrói da Amazônia a partir de fora dela.


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Primeiro a mensagem mais recente: 3) Só desgraça na Amazônia? 3


Cara Malu,

muito obrigado pela sua resposta, e perdão pela demora em lhe retornar.

Achei interessantes o Catálogo Sustentável e a seção de debates sobre questões latentes. Não acho, porém, que resolvam o problema da imagem pessimista e negativista que a mídia nacional constrói da Amazônia como um todo, e do seu setor privado em particular.

A real solução é uma mudança epistemológica: olhar para a Amazônia com um olho dentro dela e outro fora. Pois quando se olha com os dois olhos fora, cai-se na armadilha de comparar indistintamente alhos com bugalhos, Ceará com Paraná, Tanzânia com Alemanha.

No Catálogo Sustentável há 26 iniciativas públicas nacionais, das quais 2 de localidades do Norte do país (uma do NE e outra do NO); das 15 iniciativas do setor privado, nenhuma é do Norte do Brasil. Por quê? Há realmente tão pouca criatividade e qualidade nos setores público e privado do Norte e Nordeste brasileiros?

O problema é que não há iniciativas privadas em Rondônia, Amazonas ou Acre, que sejam comparáveis com iniciativas do Pão de Açúcar, da Natura ou da Motorola, por razões óbvias. Assim como nenhum município do Brasil conseguirá realizar um evento cultural comparável à virada cultural de São Paulo. Mas há muitas iniciativas em Rondônia que se destacam em relação à realidade do estado, e que certamente irão determinar os rumos do setor privado do estado no futuro. São as empresas de ponta da realidade do Norte do Brasil.

Comparar as empresas do Norte com a de São Paulo é um equívoco que leva a resultado pré-determinado: a visão de que o setor privado do Norte é ruim, arcaico, etc, etc. É o mesmo que comparar o setor privado de Nairóbi com o de Londres.

Num olhar de dentro para fora, as iniciativas de sucesso em sustentabilidade na Amazônia passam a ser as daquelas empresas que conseguem *sobreviver e* fazer o que o Pão de Açúcar, a Natura e a Motorola já fizeram há muito tempo. Daquelas madeireiras que conseguiram se adaptar ao modelo de planos de manejo; dos pecuaristas que conseguiram recuperar APP; das cooperativas de artesanato que conseguiram de fato gerar renda a partir de materiais não-madeireiros da floresta; das rádios comunitárias que passaram a transmitir programações com temas ambientais. As iniciativas daquelas micro, pequenas e médias empresas que foram capazes de fazer mudanças positivas ao mesmo tempo em que se mantiveram vivas.

Isso é uma mudanças epistemológica. E só a visão de dentro para fora poderá causar um impacto construtivamente positivo no setor privado regional. Caso vocês da FGV queiram ver na prática como se faz isso, basta virem conversar com os empreendedores de carne e osso da Amazônia: nós, em Rondônia, Roraima, Tocantins, já usamos há decadas essas lentes.

Cordialmente,


1) Só desgraça na Amazônia?


Prezados, parabéns pela iniciativa. Tenho críticas a fazer, no entanto. A idéia de vocês é contribuir para o desenvolvimento sustentável da região amazônica, e não tenho dúvidas de que, sendo um consórcio de escola de negócios, empresas e outras organizações, vocês reconhecem que o setor privado local tem um importantíssimo papel nesse caminho. Por sinal, estou escrevendo porque sou de Rondônia e trabalho com pesquisa e na prática na mesma área que vocês. Uma pessoa que não tem a menor idéia daquilo que se passa na Amazônia - como, infelizmente, é a maior parte dos brasileiros - chegará ao site procurando aprender sobre o assunto e encontrará, entre outros, os seguintes títulos: "quem se beneficia com a destruição da Amazônia"; "exploração ilegal de madeira torna o clima tenso"; governo quer tirar o produtor rural da ilegalidade sem anistiar desmatador"; e o pior, uma frase de Luciana Betiol que diz, devido a uma infeliz ambiguidade, que a compra de madeira da Amazônia é um padrão insustentável de produção e de consumo. O leigo aprenderá no site de vocês que a maior parte do que se faz na Amazônia é ruim: exploração ilegal, insustentável, destruição, etc. Será essa visão adequada? Não existirá um outro lado que está sendo omitido? Eu tendo a acreditar que a Amazônia como é hoje tem tanto a ensinar ao mundo quanto tem a aprender, e isto também significa que, se comparada com regiões com grau semelhante de desenvolvimento, a Amazônia tem um setor empresarial incrivelmente dinâmico, maleável, e acima de tudo, batalhador. As empresas e pessoas que lá estão, em grande maioria, sobreviveram aos anos 1980 e 1990 de uma maneira que poucos de nós somos capazes de imaginar. Em síntese, estou seguro de que a campanha é absolutamente louvável, mas tenho a impressão de que, apesar de serem FGV, vocês não conseguiram escapar do  ideário depressivo, negativo, viesado, que impera na sociedade brasileira quando se trata de Amazônia. Uma mudança paradigmática é necessária também neste campo.

2) Só desgraça na Amazônia? 2


From: maluvillela@gmail.com on behalf of Malu Villela
Sent: Tue 5/4/2011 16:32
To: Vale,PM  (pgr)
Subject: Re: Comentários

Prezado Petterson,

Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecê-lo pelo interesse no site da Rede Amigos da Amazônia (www.raa.org.br) e pelos comentários deixados na seção "Fale Conosco", que é um espaço importante para que possamos receber críticas e sugestões em busca da construção de um melhor portal representativo da Rede.

As questões por você apontadas já faziam parte de um processo de reflexão da  Rede, quanto ao seu papel e contribuição para a sociedade, dentro de suas limitações e alcances. Temos repensado o site e seus espaços internos. Estamos em processo de criação de uma área para as experiências amazônicas, públicas e privadas, e que segue os moldes do site de um outro projeto que temos, o Catálogo Sustentável, que identifica exemplos de iniciativas públicas e privadas no tema do consumo sustentável. Veja em: http://www.catalogosustentavel.com.br/index.php?page=ConteudoSecao&idsecao=1
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Com relação aos títulos das notícias que se encontravam no site quando de seu acesso, lamentavelmente está fora do nosso controle o conteúdo e freqüência com que reportagens ressaltando aspectos negativos da Amazônia são feitas e publicadas na mídia. No seu caso particular, cremos que no momento em que houve o acesso o cenário era de sucessivas notícias e
chamadas para estudos de denúncia. Podemos adiantar que já tivemos diversos momentos em que foi dado luz a  experiências públicas e privadas exitosas no bioma Amazônico.

Gostaríamos de adiantar, ainda, que, buscando a opinião do público para delinear o futuro da Rede, incluímos um link na página inicial denominado *"Mande sua sugestão"*, com a seguinte indagação: *"Que questões latentes na Amazônia você imagina que uma rede que reúne setor público, privado e sociedade civil em prol da conservação da floresta deveria abranger?"*. Dessa maneira, queremos construir, juntamente com o público, uma Rede que, de fato, articule todos os setores em prol da gestão integrada da Amazônia. Você também está convidado a responder a esta questão e a continuar nos encaminhando depoimentos e sugestões que nos ajudem, cada vez mais, a aprimorar o conteúdo do site.

Finalmente, agradecemos a sua ajuda ao identificar, na citação da Luciana Betiol, a ausência de duas palavras -* ilegal* e *predatório -*, que qualificam a madeira apontada como insustentável. Este equívoco já foi corrigido, uma vez que acreditamos que a madeira é um dos materiais mais sustentáveis que existem, desde que explorado de forma adequada.

Atenciosamente,

Equipe RAA

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