domingo, 16 de setembro de 2012

Desde quando há boi na Amazônia?


A desconhecer a história do povoamento da Amazônia, poderíamos acreditar que a pecuária só chegou à região quando da vinda dos imigrantes sulistas nos anos 1960; ou, então, que o gado tivesse sido introduzido um pouco mais cedo, pelos imigrantes nordestinos que se deslocaram aos seringais do Acre e Amazonas durante os ciclos da borracha do Século 19 e início do 20.

Mas não é o caso. Sabe-se que o rebanho da ilha de Marajó crescia aceleradamente já na metade do Século 18, como atesta a carta do governador do Estado do Grão-Pará e Maranhão ao Rei de Portugal, de 23 de dezembro de 1751:



"Êstes dízimos dos gados da ilha de Joanes [Marajó], é um dos ramos importantes que podia haver para fazer crescer muito a renda dos dízimos, porque os Padres das Mercês, havendo muita gente que diz que nas suas fazendas passam de andar, só de gado vacum [bovino], não falando em éguas de cria, para cima de cem mil cabeças; afirmam os mais prudentes que não serão tantos, mas que sempre passam de sessenta mil, e que liquidarão todos os anos doze mil crias para cima, seguras (...).
Eu não sei certamente a quantidade de gado que estas Religiões têm naquela ilha, mas é certo e constante que é infinita, e que só êste dízimo poderá aumentar muito as rendas atuais da Fazenda Real (...) (trecho extraído do livro "A Amazônia na era Pombalina", 1963, primeiro tomo, de Marcos Carneiro de Mendonça, p. 132)" 


Mais do que isso, a pecuária é tão velha quanto a própria idéia de uma "Amazônia", como atesta o estudo historiográfico de Leandro Tocantins em "Amazônia, natureza, homem e tempo" (1982):

"Em 1644, tardando muito, aliás, aportaram a Belém as primeiras cabeças de gado provenientes de Cabo Verde (...)
O boi desempenhou na colonização amazônica um outro papel, aproximando-se mais ou menos daquele atribuído por Capistano de Abreu na sua terminologia da 'civilização do couro'. A gadaria criou o curral e a maromba, com suas estacas de pau a pique, abrindo na paisagem dos campos da ilha de Marajó, do baixo Amazonas, do Rio Branco, uma nova página da história do homem, à procura de elementos essenciais para o seu equilíbrio orgânico e bem-estar social (...) no ano de 1726, a Câmara Municipal criou em Belém o primeiro açougue de distribuição de carne verde às populações. A raça bovina integrava-se, afinal, na sociedade amazônica para fornecer carne e leite, emprestar o seu couro às manufaturas (...) (p. 63)".

O Brasil e a Amazônia foram eregidos nas patas do boi. A pecuária é atividade tão antiga quanto a própria nação tupiniquim, e foi ferramenta essencial para a humanização do território e para a construção de sua ecologia. O que não significa, é claro, que deva se manter com a mesma tipificação tecnológica de séculos atrás. Mas que, por outro lado, desautoriza a visão de que a atividade bovinocultora é a antítese da ecologia amazônica, pois esta ecologia - uma que não é vítima do imperialismo biológico, mas centrada na formatação da natureza pelo homem e para o homem, como a tratou Gilberto Freyre - ao bem da verdade, só existe como consequência da ocupação do território pelo homem, e pelo boi.

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