Já a condenação de Dirceu e de sua gangue petista não me deixa exaltado. A razão está em um paralelo histórico bem conhecido. A Itália - país que além de dominar muito melhor do que nós a sofisticada arte da enganação, tem um sistema judicial que historicamente se apegou com maior empenho à condenação de práticas anti-republicanas - passou nos anos 1990 por um processo de limpeza possivelmente mais sério do que o que estamos vivenciando hoje no Brasil.
A operação mãos limpas não só levou ao suicídio de dois altos executivos de empresas envolvidas no escândalo (que corresponderiam a Marcos Valério) e à fuga do país de ninguém menos do que o ex-presidente da República e então chefão do poderoso Partido Socialista - e da política italiana! -, Bettino Craxi, mas também condenou em torno de 1.400 pessoas em menos de 8 anos de investigações (Corriere della Sera).
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| Silvio Berlusconi e o então Presidente Bettino Crax, em famosa fotografia de 1984 |
Mesmo assim, a política italiana não parece ter mudado grande coisa. Em 2000, ano em que Craxi faleceu em seu exílio na Tunísia por complicações de diabetes, dos 1.400 condenados em definitiva pela operação mãos limpas, nada mais que 4 continuavam presos. Além disso, o reinado do maior dos mafiosos, Silvio Berlusconi, começara já em 1994 - ano em que as investigações estavam em seu auge -, ganhando força precisamente no período em que a magistratura se debrulhava para desconstruir os bilionárias esquemas de corrupção que se haviam instaurado nos anos 1980.
A foto acima se fez historica porque retratou a passagem do bastão de Craxi para Berlusconi: é como se este fosse o espelho daquele. Quando a justiça finalmente teve fôlego para de alguma forma atingir o núcleo do poder, derrubando um e arranhando outros, a criatura de Craxi já estava pronta para começar uma nova festa, com padrões contemporâneos e estilo inovador de assalto à coletividade.
Por isso, não acho que devamos nos iludir. A condenação do PT é histórica, sim, mas a limpeza da podridão de nossa sociedade exigirá esforço bem maior.
Será que temos um Berlusconi à nossa espera?

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