quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mantra verde - a cegueira do discurso fácil

Eduardo Giannetti é um grande pensador. Conhece a filosofia como poucos, tem um olhar crítico sobre o pensamento estreito da esquerda brasileira, e escreve de maneira encantadora. Eu mesmo deixei um texto dele fixo neste blog, na coluna aqui do lado direito - em que capturou muito bem o atual desafio do brasileiro. Mas a sua melhor contribuição escrita, a meu ver, foi um livrinho pouco conhecido, porém muito desafiador e criativo - "As partes e o todo", de 1995.



Hoje, no entanto, decepcionei-me com as idéias de Giannetti. Já faz algum tempo que eu venho acompanhando com preocupação o seu deslize para o mantra do politicamente correto. Ele foi um dos principais motivadores da campanha presidencial de Marina Silva, e isso só pode significar que não conseguiu enxergar as profundas limitações do enfoque sonhático. Mas bem, deslizes são deslizes.


O problema é que Giannetti foi vítima de um verdadeiro escorregão, daqueles que deixam as idéias de um indivíduo completamente zonzas. A entrevista dele para o jornal Valor comprova que incorporou por completo o mantra do verdismo incauto. Se deu conta de que crescimento do PIB não é tudo; percebeu que a alocação de mercado não é necessariamente ótima do ponto de vista dos ecossistemas; entre outros. Até aí, tudo bem. Eu mesmo incorporei esse mantra três anos atrás, o que culminou neste artigo que apresentei em 2009.

O escorregão de Giannetti está em acreditar que a aceitação das idéias da economia ecológica, como sintetizadas, por exemplo, por Herman Daly ou Tim Jackson, implica no alinhamento com o ambientalismo incauto de Marina Silva, do Greenpeace, dos Amigos da Terra, do Imazon, etc. Nisso, ele está redondamente enganado. Talvez pelo fato de a força desse filósofo / economista estar no campo das idéias abstratas, e não nos meandros da prática, ele tenha sido incapaz de transplantar, de forma consistente e rigorosa, o seu novo mantra para debates como o do código florestal e de Belo Monte.

Se Giannetti empregasse rigor analítico e capacidade crítica para fazer valerem as idéias fundamentais da economia ecológica em questões da máxima urgência socioambiental, chegaria a conclusões opostas às de seu movimento marinista. Acordaria para o fato de que já somos a maior potência florestal do mundo, e que só não continuaremos a sê-lo se insistirmos em aniquilar o setor primário da economia nacional; perceberia que a não construção de hidrelétricas, e a não pavimentação de rodovias na Amazônia, é a estratégia do atraso, que não tem a ver com um presumível equilíbrio entre homem e meio ambiente, mas com o mais límpido fascismo.


Numa reflexão cuidadosa, Giannetti teria de notar que tomar decisões alocativas com base unicamente em variáveis ecossistêmicas é, ao mesmo tempo, eticamente injustificável e impossível. É injustificável porque significaria tirar do ser humano as rédeas de seu próprio destino, o que vai contra toda a tradição humanista e liberal que o próprio Giannetti tanto defendeu. E mais: na medida em que não se pode escolher, para a tomada de decisões, um representante do meio ambiente que seja ele próprio natureza e não homem, então é impossível que se tomem decisões alocativas com base em variáveis ecossistêmicas apenas - haverá sempre um homem a definir os contornos da decisão a ser tomada, e por mais que ele tente, o seu processo cognitivo é humano, não ecossistêmico.


Como tão bem argumentou Luc Ferry em seu livro "A nova ordem ecológica" (1992), colocar a natureza acima do homem não é uma premissa fascista porque a filosofia hitleriana o fez, mas porque constitui a essência mesma do fascismo, que é a aceitação da opressão do ser humano frente a princípios de ordem mais elevada, quaisquer que sejam.

É aqui que Giannetti poderia entrar: na separação do joio e do trigo. Para mim, está claro, o joio é o marinismo, e o trigo é todo um meio de campo composto de indivíduos e instituições com profundo conhecimento aplicado tanto da problemática ambiental quanto da economia real. Mas eu não sou dono da verdade. Um ferramental filosófico apurado poderia contribuir para a valiosíssima reflexão sobre o papel da preservação ambiental na ética humanista. Poderia nos ajudar a navegar neste novo momento, em que o capital natural deixa de ser abudante relativamente às outras formas de capital, com os pés bem fincados na mais legítima tradição liberal. Poderia... são os votos que faço para 2012!

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