sábado, 16 de agosto de 2008

Debate sobre prova da ANPEC

Há alguns meses um grupo de alunos da UFRJ lançou na internet (http://debateanpec.blogspot.com/2008/04/abaixo-assinado_09.html) um abaixo-assinado e um debate sobre uma proposta de reformulação da prova da ANPEC. Redigi um comentário com a minha opinião, mas aparemente fui censurado!

Abaixo o conteúdo do meu post.

Muito interessante esta reunião de economistas para discutir o exame da ANPEC. Fora os radicalismos, característicos de quem não tem ponderação suficiente para analisar friamente os lados de um debate, há muito o que se aprender neste conjunto de posts.

Em primeiro lugar, o problema enfrentado pela prova da ANPEC é o mesmo que enfrenta qualquer vestibular: capacidade de processamento. O ideal seria que as questões fossem dissertativas, de modo a avaliar a capacidade de redação, de síntese, de absorção do conteúdo e de ligação entre as diversas áreas do estudo econômico. No entanto, isso é inviável (apesar de que os 255 mil que arrecada a ANPEC - segundo cálculos do Lucas - deveriam ser suficientes até para isso). Resta, então, a opção de fazer um monte de testes e utilizar um gabarito que entra no computador e sai com a nota depois de um segundo. E, para os centros que tiverem interesse, aplicar uma redação cuja correção fica a cargo do próprio centro e de suas idiossincrasias.

Pois bem, não adianta nada mudarmos o exame da ANPEC, retirando formalismos ou adicionando subjetivismos, se as escolas associadas não tiverem interesse em modificar as ponderações de cada prova. De que adiantaria adicionar uma prova de HPE se, de qq maneira, a maioria das escolas lhe daria ponderação zero? O que pode ser mudado são as ponderações dadas por cada centro para as provas já existentes. E nesse sentido me parece um absurdo que a redação não seja considerada pela maioria das escolas.

As motivações que estão por trás da opção de cada centro por uma determinada ponderação não dependem da estrutura da prova da ANPEC, mas o contrário é verdadeiro. Se a maior parte das escolas demandar maior conteúdo de HPE, isso certamente será incluído na ANPEC.

Cada escola tem uma determinada estrutura curricular e uma determinada qualidade, e os alunos fazem a opção de acordo com isso, não de acordo com a prova da ANPEC. Se eu quero estudar na UNICAMP porque acho que a estrutura / qualidade da instituição condizem com o que estou procurando, vou me preparar de acordo com a ponderação daquela prova. Se, pelo contrário, faço a opção pela PUC / RJ, estudarei de acordo com a ponderação exigida por essa escola. E, no fim, a ponderação tem tudo a ver com a estrutura curricular da escola.

Em suma, não vejo problemas com a prova da ANPEC. Quem quer estudar na USP precisa estar preparado com determinado ferramental teórico, e isso é exigido na prova da ANPEC. Quem vai fazer UFRJ deverá trazer consigo um ferramental bastante diferente, e isso é o que está sendo exigido na prova. Agora, se os alunos da UFRJ não estão de acordo com a ponderação, e acham que não condiz com o que seria necessário para estudar nessa escola, então devem protestar internamente.

Em relação aos itens 2 e 3, não há muito o que comentar. Realmente, o preço da inscrição é assustador e existe um claro padrão de transferência de renda, como bem observou um colega num dos posts acima. Isso precisa mudar, e me parece que um abaixo assinado é a primeira ferramente para tanto. O mesmo se aplica ao assunto da cola, apesar de que, principalmente num país como o nosso, numca estaremos livres de picaretagens das mais criativas!

Concluindo, concordo com o Theo e com outros em que deveríamos dividir esta manifestação em duas partes, de modo a otimizar os resultados.

Finalmente, não posso deixar de participar do bate-boca. Recemente o professor Marco Valente, economista italiano, disse o seguinte: os economistas tendem a defender com unhas e dentes as ferramentas com as quais se identificam, ao invés de entender as características dos diferentes instrumentos disponíveis e aplicar a chave certa ao parafuso em questão. Ou seja, o economista neoclássico pretende entender o mundo inteiro em termos de equilíbrio geral; o econometrista pretende rodar regressões para os mais diversos fenômenos indistintamente; o institucionalista encontrou a panacéia que explica tudo e nada ao mesmo tempo, e assim por diante.

A visão do prof. Marco é a perfeita síntese do debate que estamos tendo por aqui. Aquilo que se chama de economistas heterodoxos, um conjunto extremamente diverso de escolas que, no caso do Brasil, procuram ter uma visão crítica da teoria econômica, da história e da sociedade, é fundamental para a construção de uma Nação com projeto de desenvolvimento de longo prazo. O modelo IS-LM e suas derivações jamais será útil para o entendimento das nuances e da especificidade do desenvolvimento da economia brasileira.

Por outro lado, a instrumentalização e operacionalização da análise econômica é fundamental para a garantia da eficiência do sistema. Como poderia um especialista do BACEN tomar decisões com base em teoria marxista? Certamente não sairia nada de bom! Como poderia um burocrata do Ministério da Fazenda analisar as contas públicas do país sem entender de sistema tributário, de legislação e de finanças? Como poderíamos entender a dinâmica intersetoria da indústria sem análises de insumo-produto? Como faríamos projeções da demanda de energia para os próximos dez anos sem utilizar econometria?

O estudo da economia não pode prescindir de um nem de outro. E cada pesquisador deve se concentrar em determinada problemática (e não em determinada ferramenta). O que não se pode aceitar são (pseudo-) cientistas que se fecham em seu mundinho e acreditam que a ciência não passa daquela escola que escolheram para si, mais ou menos como times de futebol. Na verdade, a ciência é a controvérsia em si, e avança por meio da oposição de idéias e do debate. Um monte de economistas que concordam entre si, além de não representar qualquer ciência, é uma coisa triste até de se imaginar. Ainda bem que isso não existe em nenhuma escola!

Por fim, dizer que os economistas mais influentes do país vêm da UNICAMP é um pouco de exagero! Assim como o FHC colocou a turma da PUC / RJ, o Lula está dando lugar à turma da UNICAMP, e isso não faz com que essa turma seja influente. Ser influente significa ter suas idéias no centro do debate econômico nacional.
Por outro lado, desqualificar os "meninos da PUC" é uma tremenda infantilidade, para dizer pouco.

Nenhuma escola tem 100% de alunos e professores ligados à linha de pesquisa que nela mais se sobressai. A USP é o exemplo clássico, em que há pesquisa de peso nacional tanto em teoria marxista como em economia keynesiana e economina neoclássica. Mas a UNICAMP também tem alunos e professores adeptos à formalização, apesar de serem minoria, bem como suponho que existam na PUC / RJ pesquisadores que destoam da característica principal da escola.

Petterson Molina Vale
Mestrado em desenvolvimento econômico / IE / UNICAMP

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente crítica. Difícil de imaginar que alguém da UNICAMP seria tão ponderado assim.